Número de zonas costeiras mortas dobra e chega a 400

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O Estado de S.Paulo - 15/08/2008

No Brasil, existem 6 áreas sufocadas, sem oxigenação adequada, aponta primeiro estudo global sobre o tema

O número de zonas costeiras mortas no mundo já cobre uma área de mais de 245 mil km², o equivalente ao Estado de São Paulo. São cerca de 400 ecossistemas marinhos afetados. Pesquisadores do Instituto Virgínia de Ciência Marinha (EUA) e da Universidade de Gothenburg (Suécia) realizaram o levantamento, que foi publicado hoje na revista científica americana Science.

Zonas mortas são regiões onde a quantidade de oxigênio disponível é menor do que 0,2 ml para cada litro de água, uma situação conhecida como hipóxia. A fauna e a flora marinhas morrem asfixiadas ou migram para regiões onde o nível de oxigênio não declinou.

Nas últimas décadas, a maior parte dos processos de hipóxia na região costeira foram induzidos pelo homem. O excedente de fertilizantes utilizados na agricultura chega ao mar através dos rios e estimula a multiplicação das algas. Com o tempo, as algas morrem e alimentam bactérias que também se multiplicam e consomem todo o oxigênio. O esgoto doméstico, lançado sem tratamento no mar, acelera esse processo.

A pesquisa diferencia zonas mortas periódicas e permanentes. A hipóxia - que pode durar horas, dias ou meses - também causa a morte das bactérias. A concentração de oxigênio na água, então, se normaliza. Mas, se os dejetos humanos continuam presentes, as algas espalham-se novamente, recomeçando o ciclo que terminará em mais um episódio de hipóxia. Com o tempo, os ciclos tornam-se cada vez mais curtos e a água pode chegar a uma situação de completa ausência de oxigênio - a anóxia.

Surgem então bactérias que não precisam de oxigênio para respirar. Tais microrganismos produzem substâncias tóxicas como o ácido sulfídrico. A água fica com cheiro de ovo podre e torna-se uma zona morta permanente.

Segundo o trabalho, “o número de zonas mortas dobrou a cada década desde os anos 60”. Ao Estado, Robert Diaz, do Instituto Virgínia de Ciência Marinha, afirma que parte desse aumento pode ser explicado pelo crescimento, nas últimas décadas, do número de pesquisas sobre hipóxia na zona costeira. Mas lembra que no norte da Europa e nos Estados Unidos, onde estão a maior parte das zonas mortas, há dados confiáveis desde 1910.

No Brasil, existem seis zonas mortas: a Lagoa dos Patos, em Porto Alegre (RS), a Baía de Guanabara e a Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio (RJ), a Bacia do Pino, em Recife (PE), a Lagoa da Conceição, em Florianópolis (SC) e a Lagoa de Imboassica, em Macaé (RJ). Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da USP, explica que, em lugares de grande extensão geográfica, como a Baía de Guanabara, a hipóxia costuma permanecer restrita ao fundo da baía, distante da abertura para o oceano. O pesquisador ficou surpreso com o número de zonas mortas no mundo.

A maior parte das regiões críticas fica no hemisfério norte. “O número poderá dobrar novamente na próxima década, quando China e Índia publicarem suas pesquisas”, afirma Diaz. Ele acredita que o Brasil realiza um bom monitoramento. Turra discorda: “Precisamos estudar de forma mais sistemática.”

Todos nós sabemos que esses números indicam apenas a ponta do iceberg. Aqui em Santos por exemplo, sabemos que existe uma imensa zona morta nos braços que formam o estuário. É muito lançamento de esgoto e muita bactéria em quase toda sua extensão.
Um local onde deveríamos ver centenas de espécies incluindo peixes, aves, crustáceos e moluscos reproduzindo e se alimentando, é na verdade uma grande área desprovida de vida e contaminada por doenças.
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