Os bichos da cidade

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Vitor de Andrade Silva - 21/09/2008

Toda manhã é a mesma rotina. A ceramista Maria Angélica Dias, após tomar café, distribui igualmente ração às suas cadelas Milu e Nina. Depois é a vez de alimentar seus inquietos vizinhos: uma turma de serelepes sagüis-de-tufo-branco que, às 9h, já estão se chacoalhando e se coçando de tanto esperar.


















Ao avistá-la de longe, o grupo, de cerca de 15 símios, agita-se saltando de um galho para outro, mas sempre ao redor de um refeitório improvisado entre duas árvores. O bando é exigente e seleciona apenas as melhores bananas depositadas por Angélica Dias. Mesmo com toda a fartura, vorazes, disputam pelas melhores bocadas.















Outros vizinhos, que também dão o ar da graça, são os exóticos tucanos-de-bico-verde, com seus grunhidos roucos; os saruês, conhecidos como gambá-de-orelha-preta; as preguiças e até um mico-leão-de-cara-dourada, que figura na lista da extinção: quatro espécies raras, que ainda ilustram o cenário da Mata Atlântica.

Angélica Dias não vive nas proximidades de um parque ambiental, mas na diminuta área insular de Santos, por incrível que pareça. Mais exatamente no Morro Santa Terezinha, que, em conjunto com os demais morros da ilha, forma uma única, porém fragmentada, malha verde - um resquício de Mata Atlântica em meio ao pleno desenvolvimento urbano.

Risco de desaparecer

Resistente ao desenvolvimento urbano dos morros, a maioria dos animais silvestres, muitos deles endêmicos, prefere ficar abrigada nos limites das matas, cada vez mais devastadas e invadidas. Hoje, segundo a Secretaria de Planejamento de Santos, estima-se que haja mais de 500 famílias de baixa renda vivendo em áreas de risco dos morros.

Assim, confinada em espaços cada vez menores, segundo a bióloga da Secretaria de Meio Ambiente de Santos (Seman), Sandra Regina Pivelli, a fauna só tem duas alternativas: "Ou perde seu habitat, ou terá que se adaptar a novas condições de vida, o que infelizmente já é uma realidade para muitas espécies".

Outro grande problema é justamente o processo inverso: quando um bicho é inserido em um bioma ao qual não pertence. O caso dos cativantes sagüis de tufo-branco, da Região Nordeste, é exemplar. "Quando se faz este tipo de introdução, a nova espécie passa a disputar alimento e território com as nativas, podendo dizimá-las. Foi uma grande surpresa saber que temos mico-leão-de-cara-dourada nos morros, embora sejam originários da Mata Atlântica da Bahia. Ambas as espécies foram inseridas e, infelizmente, beiram sumir do mapa (de Santos)" explica a bióloga do Orquidário Municipal, Ana Beatriz Comelli.

Ela explica que os sagüis dos morros descendem de exemplares em comum. Ou seja: incesto animal. "Cruzamento consangüíneo é sinônimo de filhotes com problemas de formação ou então mortos", diz. "Quanto ao convívio com os humanos, o mais indicado é que fiquem o mais distante possível, por mais apaixonante que seja tê-los por perto. Eles podem transmitir doenças e vice-versa. Além disso, são muito curiosos, astutos, ousados e oportunistas. Se ganharem confiança, dificilmente se intimidarão, podendo invadir uma residência sem receio algum."

Como proceder

Se o velho dito "cada macaco no seu galho" cai como luva na relação homem/animal silvestre, ao ver um preso ou ferido, o melhor é entrar em contato com o Ibama, ao invés de adotá-lo. Caso exemplar ocorreu em agosto: um macaco da espécie caiarara foi encontrado em Guarujá. Logo, foi encaminhado ao Ibama e, posteriormente, ao Centro de Triagem de Animais Selvagens (Cetas), em São Vicente. Para se ter uma noção da importância de um manejo correto, basta citar que a espécie corre risco de extinção — uma verdadeira raridade, tanto que em todo Brasil só existem quatro exemplares em cativeiro.

Avifauna Santista
















Das densas matas dos morros, até o cais do porto sobrevoam mais de 120 espécies de aves, das quais 12 são endêmicas — difícil imaginar, já que a maioria dos pássaros que os santistas estão habituados a ver são os pombos, os desprezados urubus e as esbeltas garças.

"Mas, com sorte e um pouco de atenção, é possível identificar diversas outras nas áreas verdes da cidade (praças, alamedas e parques, como o horto e o orquidário municipais), que representam apenas 10% dos 39 quilômetros quadrados da área insular da cidade" afirma Regina Pivelli.

Desde 2002, em parceria com a bióloga Maria Cecília, ela estuda a avifauna santista e a considera bastante rica, considerando que a flora da cidade não é tão exuberante. "A vegetação dos morros é secundária, está em fase de regeneração e 70% das árvores daqui são ingás: um grande problema. Apesar de a planta garantir frutas saborosas, as aves, assim como nós, humanos, também apreciam um cardápio variado. Por sorte, a veia desta fauna ainda vaza pelo pouco que resta de áreas verdes da cidade" acredita.

Por que preservar?
















A fauna santista, por incrível que pareça, tem lá a sua importância no dia-dia da cidade. Os falcões peregrinos, por exemplo, vêm da Groenlândia e permanecem em Santos e região durante o verão. São aves que investem na caça de pombas e pequenos roedores.

Desta forma, de acordo com Ana Beatriz Comelli, assim como as corujas-mocho-orelhudo (ou coruja de igreja), fazem sua colaboração no controle destas pragas urbanas. "Já as aves como os beija-flores, os tucanos-de-bico-verde e, também, os símios ajudam a fertilizar as flores e espalhar as sementes, contribuindo com a disseminação da flora — cada espécie com um importante papel", salienta a bióloga.

"Por isso, a importância de se preservar e fiscalizar os morros. Acredito, ainda, que a exploração destes espaços com o ecoturismo é válida para a proteção e divulgação das espécies que ocorrem naturalmente na região... mas, com uma boa proposta de educação ambiental incluídas, claro", completa.

Mangue

De um lado, uma vasta vegetação quase intocada. De outro, diversas palafitas do Dique da Vila Gilda, que desafiam as adversidades de se manterem estáveis sob o mangue. Boa parte do bioma que o ecossistema deveria guardar não existe mais, o que evidencia as péssimas condições ambientais, já que, de acordo com um estudo dos biólogos Fábio Olmo e Robson Silva e Silva, "entre os manguezais do estado de São Paulo, os da Baixada Santista, especialmente aqueles da 
área de Santos-Cubatão, são os que apresentam a fauna mais exuberante, tanto em número de espécie como de indivíduos... Algumas têm ali as únicas populações conhecidas no estado de São Paulo, ou as suas maiores concentrações populacionais".

Para o coordenador do projeto EcoFaxina (que pretende recuperar o Dique da Vila Gilda), William Rodriguez Schepis, todos têm a ganhar com a preservação do mangue: a população, o governo e, claro, a fauna local. Com a conscientização dos moradores das palafitas, ele acredita que, em cinco anos, 80% da área poderá estar reconstituída. "O problema é que há um projeto da construção de uma avenida no local, pela Prefeitura Municipal. Isso inibirá novas invasões, mas não a degradação do mangue. O correto seria criar uma reserva ambiental na área... Quem sabe um parque ecoturístico sustentável? Sem dúvida, Santos só terá a ganhar", prevê.

Espécies ainda encontradas na cidade


















Teiú (Tupinambis merianae) – O lagarto ocorre do sul do amazonas ao norte da Argentina. Em Santos pode ser encontrado nos morros da cidade e em áreas adjacentes. É facilmente visto devido ao seu tamanho, cerca de 1,40m de comprimento, com quase 5 quilos. Toleram muito bem os humanos.

Gambá (Didelphis sp) – Marsupiais que podem pesar até 3 quilos. A fêmea possui uma bolsa, onde ficam alojados os filhotes que nascem prematuros e lá completam seu desenvolvimento. Apresentam garras em todos os dedos e cauda longa e preênsil, que auxilia na escalada de árvores. São encontrados nos morros, podendo eventualmente descer nas áreas próximas. São eficientes dispersores de sementes. 

Sagüi de tufo branco (Callithrix jacchus) - É o sagüi mais conhecido e mais comum. Ocorre naturalmente no Nordeste do Brasil, porém foram introduzidos em várias regiões do país. São animais pequenos e pesam entre 350 e 450 gramas. A pelagem é estriada nas orelhas e possui mancha branca na testa. Alimentam-se de sementes, frutos, moluscos, anfíbios e filhotes de aves e de mamíferos. Também são grumívoros, retirando a goma de certas espécies de árvores. São avistados em grupos na área dos morros.

Preguiça (Bradypus variegatus) – O mamífero alimenta-se de folhas de diversas espécies de árvores. É difícil vê-los, pois normalmente vivem nas copas das árvores. Ocorrem na Região Amazônica, Região Centro-Oeste e na Mata Atlântica. Antigamente havia um grupo desta espécie na Praça dos Andradas. Hoje podem ser vistos nas árvores dos morros de Santos.

Jararaca - Serpente peçonhenta de hábitos noturnos, que se alimentam de roedores, rãs, sapos e répteis pequenos.

Avifauna da cidade


















Tucano de bico verde (Ramphastos dicolorus) - Podem ser vistos em vários pontos da cidade, como morros e o Orquidário Municipal. O característico bico, apesar de grande, é extremamente leve.

Garça branca grande (Ardea Alba) - Espécie de grande porte, completamente branca, com o bico longo, amarelado e pernas e dedos pretos. Alimenta-se de animais aquáticos. Comumente vista nos canais, parques e área do entreposto de pesca, onde ficam aguardando sobras de pescados.

Garça branca pequena (Egretta thula) - Mesmo possuindo bico e pernas negros,é muito confundida como filhote da garça branca grande. Encontrada próxima às margens de lagos, rios e à beira mar. Avistada na região junto com a garça branca grande.


















Tié-sangue (Ramphocelus bresilius) – O macho apresenta belíssima plumagem vermelha viva, que deu origem ao nome. Já a fêmea é menos vistosa, de cor marrom. Vive em áreas desmatadas, campos sujos, capoeiras baixas e restingas. Alimenta-se de frutos. Pode ser observado em vários pontos da cidade.

Quero-quero (Vanellus chilensis) – Ave de cor cinza claro, com detalhes negros na cabeça, peito e cauda. Alimenta-se de invertebrados aquáticos, moluscos e artrópodes terrestres. Ave territorialista, que em qualquer situação de invasão dispara um som bem conhecido. Nas cidades é encontrado em campo aberto, como estádios de futebol e amplos gramados.

Mocho orelhudo (Rhinoptynx clamator) - Habita áreas abertas, florestas, cerrados, caatingas e áreas urbanas e arborizadas. É considerada uma das corujas com audição mais desenvolvida. Alimenta-se de vertebrados como roedores, morcegos, lagartos e anfíbios.  Comumente visto na região.

Gavião-pombo (Leucopternis lacernulatus) - Espécie ameaçada de extinção e endêmica da Mata 
Atlântica devido principalmente à perda de habitat. Alimenta-se de aves, cobras e artrópodes, podendo chegar a até 40 centímetros.

Saracura (Aramides saracura) - Esta espécie de saracura habita preferencialmente áreas de brejos e floresta. É endêmica da Mata Atlântica.Alimenta-se de brotos, artrópodes e pequenos vertebrados.

Tiriba-de-testa-vermelha - (Pyrrhura frontalis) - Espécie endêmica da Mata Atlântica, que vive em áreas florestadas. Voam em bandos de 5 a 10 indivíduos. Alimenta-se de frutos e sementes.

Beija-flor-de-fronte-violeta (Thalurania glaucopis) - Espécie endêmica da Mata Atlântica. Alimenta-se de néctar e pequenos artrópodes.

Tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus) - Espécie endêmica da Mata Atlântica Alimenta-se de frutos, artrópodes e pequenos vertebrados.Vive geralmente em pares. Utiliza como local de nidificação cavidades em árvores.

Pica-pau-de-cabeça-amarela (Celeus flavescens) - Tem hábitos solitários, mas quando os filhotes saem do ninho continuam junto dos pais por alguns dias, formando pequenos grupos familiares. Alimenta-se de frutos e artrópodes

Teque-teque (Todirostrum poliocephalum) – Pequena ave endêmica da Mata Atlântica. Vive em casais no alto das árvores. Alimenta-se de artrópodes.

Tangará-dançarino (Chiroxiphia caudata) - Durante a época de reprodução, pequenos grupos de machos se reúnem ao redor de uma fêmea e iniciam uma “dança” bastante elaborada, em que os machos se exibem para a fêmea.   Alimenta-se de frutos.

Tiê-preto (Tachyphonus coronatus) - Espécie endêmica da Mata Atlântica, que habita o sub-bosque da mata vivendo em casais. Alimenta-se de frutos, flores e artrópodes.

Saí-azul (Dacnis cayana) - Vive em casais ou pequenos grupos. Pode ser encontrado em florestas, bordas de mata e jardins. Alimenta-se de frutos, néctar e artrópodes.

Gaturano-verdadeiro (Euphonia violacea) - Vive no dossel da floresta, associando-se com freqüência a bandos mistos de saíras. Alimenta-se de frutos.

Outras aves que compõem o cenário santista

















Biguá, Fragata, Socozinho, Garça-branca-grande, Garça-branca-pequena, Urubu-comum, Gavião-carijó, Carcará, Carrapateiro, Rolinha-caldo-de-feijão. Pomba-doméstica, Asa-branca, Juriti, Tuim, Periquito-verde, Maritaca-bronzeada, Papagaio-verdadeiro, Alma-de-gato, Anu-preto, Andorinhão, Tesourão, Beija-flores-de-garganta-verde, Martim-pescador-grande, Tucano-toco, Pica-pau-anão, Pica-pau-anão-barrado, Pica-pau-do-campo, Choca-da-mata, Olho-de-fogo, Limpa-folha-coroado, Relógio, Guaravaca-de-barriga-amarela, Tuque, Risadinha, Filipe, Enferrujado, Suiriri-pequeno, Lavadeira-mascarada, Bem-te-vizinho, Bem-te-vi, Bem-te-vi-de-bico-chato, Suiriri, Tesoura, Capitão-de-saíra, Rendeira, Caneleiro-de-chapéu-negro, Juruviara, Andorinha-doméstica-grande, Andorinha-pequena-da-casa, Andorinha-serrador, Corruíra, Corruíra-do-brejo, Sabiá-una, Sabiá-laranjeira, Sabiá-poca, Cambacica, Canário-sapé, Tiê-da-mata, Sanhaço-cinzento, Sanhaço-do-coqueiro, Tico-tico, Tziu, Coleirinha, Mariquita, Piá-cobra, Pula-pula, Chopim, Bico-de-lacre e Pardal.

Na mata
















Logo que escrevi as primeiras linhas desta matéria senti uma forte curiosidade em ver com meus próprios olhos o que os morros da cidade realmente guardavam. Pois bem, em uma surrada mochila, coloquei tudo que acharia que talvez precisasse ao longo de uma tarde: uma faca, confrei, um rolo de gaze, um casaco e 1,5 litro de água mineral. Subi o morro e em uma determinada altura, disfarçadamente embrenhei-me na mata, que, apesar de ser secundária, é bem desenvolvida e guarda algumas armadilhas.

O céu estava limpo e a luz do sol passava pela densa vegetação na medida certa para que meus olhos pudessem observar o local com atenção. Porém, as surpresas vieram mais rápidas de modo sonoro. Quanto mais me distanciava da avenida Prefeito Dr. Antônio Manuel de Carvalho, os pios e grunhidos (que nunca havia ouvido antes, nem mesmo no Orquidário Municipal), aos poucos encobriam o barulho dos carros e formavam uma diferente sinfonia contrapontística, percutidas pelas árvores e pelos rangidos dos bambus do local.

O ar seco e a fumaça eram, graduadamente, substituídos pelo cheiro de terra úmida. Embora rico em avifauna, localizar os pássaros não foi tão fácil quanto esperava, talvez pela minha falta de experiência como observador. O primeiro a dar as caras foi um tié-sangue macho. Misturado às vermelhas flores, ele se destacou na mata verde quando levantou vôo. Logo em seguida, diversos outros apareceram subitamente. Com suas acrobacias aéreas, eles pareciam brincar. Ainda consegui avistar, no mínimo, outras seis espécies de diferentes pássaros, dificilmente vistas na área urbana da cidade.

Naquele pequeno trecho que explorei durante a tarde encontrei diversas trilhas. A maioria terminava na própria mata, enquanto poucas davam em trabalhos de umbanda. Cenas macabras. Muitas destas trilhas já estão sendo tomadas, gradativamente, pelas matas - um bom sinal de regeneração. O problema é que outras podem dar vez a novas ruas de terra, o que já está ocorrendo em alguns pontos dos morros, pondo em xeque a fiscalização das áreas verdes dos morros de Santos, que são protegidas por lei.

Fonte: Jornal da Orla


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