Poluição é a causadora de mutações no ecossistema marinho, diz biólogo da USP

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Há 15 anos, o biólogo Marcos de Oliveira Santos pesquisa a vida e a rotina dos botos que vivem no litoral de São Paulo e do norte do Paraná, mais precisamente em Cananéia e Paranaguá. Em 2006, percebeu que esses animais apresentavam marcas na pele. Com a ajuda da também bióloga Marie-Françoise Van Bressem, descobriu que essa é uma patologia comum onde existem culturas que poluem muito os rios. Segundo Santos, pesquisas como a sua servem “como uma bandeira de conservação” e, com isso, tentam levantar a questão da importância que se deve dar aos ecossistemas.

Nesta entrevista, realizada por telefone, Santos fala sobre sua pesquisa e a relaciona com a saúde do ecossistema dos rios e mares. Ele aproveita e deixa um recado para os leitores do sítio do IHU: “Peço aos leitores desta entrevista, que apreciam os golfinhos, que observem-os a distância. Em países como os Estados Unidos, isso é uma lei. Os animais devem ser observados à distância. Tocar, abraçar, segurar um animal desses por lá gera multa. Talvez tenhamos que ter um processo como esse, no Brasil, para que se aprenda a respeitar a natureza”.

Marcos de Oliveira Santos é biólogo pela Universidade de São Paulo, onde também realizou o mestrado e doutorado em Ecologia. Atualmente, é professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. É também pesquisador do Earthwatch Institute e do Programa Antártico Brasileiro, além de coordenar o Projeto Atlantis Educação Ciência.

Botos em Cananéia, litoral sul de São Paulo. Crédito: Luiz Marco 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor pode nos contar um pouco mais sobre a doença que observou nos botos de Paranaguá?


Marcos de Oliveira Santos – Venho estudando os botos no litoral de São Paulo e Norte do Paraná desde 1996. A ênfase foi dada inicialmente aos botos do litoral Norte do Paraná, no Estuário de Paranaguá. O meu trabalho com esses dois grupos de botos usa uma ferramenta chamada de fotoidentificação. Os indivíduos de cada população são identificados através de fotos da nadadeira dorsal. Essas nadadeiras têm características próprias para cada indivíduo. Acompanho esses animais ao longo do tempo, procurando entender sobre o deslocamento entre diferentes áreas, contabilizando o número de indivíduos, e assim por diante.

Quando iniciei o trabalho em Paranaguá, comecei a notar que os botos apresentavam muitas marcas estranhas na pele. Percebi em diversas saídas de campo que essas marcas eram frequentes. Isso eu não havia observado no Estuário de Cananéia, em São Paulo. Esses dois estuários estão conectados por canais, por águas estuarinas. São 60 km de distância um do outro. Temos uma prova, apenas, de um boto de Cananéia que apareceu no Norte do Paraná. Aparentemente, contudo, as populações são residentes e não há intercâmbio entre os indivíduos. Porém, os indivíduos de Paranaguá estavam apresentando essas marcas. Em um evento científico, quando mostrei essas marcas a um colega de profissão, ele me indicou o nome de uma veterinária, Marie-Françoise Van Bressem [1], que mora no Peru, atualmente. Van Bressem é holandesa e veio para a América do Sul porque tem curiosidade de estudar as patologias dos animais mamíferos marinhos deste continente.

Esse é um campo vasto. Ainda há muito o que se descobrir. Van Bressem vem realizando esse trabalho há cerca de dez anos, publicando sobre o assunto e fazendo contato com pesquisadores brasileiros. Assim, enviei a ela as fotos dos botos que estudo. A pesquisadora começou a identificar as marcas dos animais em questão. Essas marcas são, na verdade, uma patologia de pele chamada de lobomicose [2]. Essa patologia foi descrita em 1971. Em 1993 ela foi mencionada novamente, e depois não se falou mais a respeito.

Van Bressem observou que essas patologias são mais comuns do que se previa, principalmente em áreas da América do Sul, onde há uma concentração grande de portos, assim como criação de camarões ou de peixes em cativeiro, fazendo o uso de antibióticos para controlar as doenças de pele desses animais. Esses produtos interferem no ambiente natural e, de alguma forma, causam problemas a alguns organismos que não estão adaptados. Esse é o resumo do trabalho que foi publicado agora, em janeiro de 2009, em uma revista chamada Marine Enviromental Research.

IHU On-Line – Que pistas essa doença dá sobre a situação da saúde de todo o ecossistema local?

Marcos de Oliveira Santos – Essa pergunta é interessante porque, da década de 1970 para cá, pesquisadores conduziram um estudo com baleias Beluga no Canadá. A partir daí, começou-se a utilizar os cetáceos (mamíferos que englobam baleias e golfinhos) como indicadores da qualidade do meio. A estratégia desses cientistas era a seguinte: eles estavam encontrando muitas Belugas mortas em regiões costeiras e tentaram descobrir a razão dessa mortalidade. Assim, levaram amostras de gordura das Belugas para laboratórios de química analítica. Ali, descobriram que havia concentrações de compostos chamados organopersistentes [3], que saem de indústrias de manufatura, de transformadores, ou de inseticidas e pesticidas. Quando adentram a natureza, esses compostos são absorvidos pelos vegetais, no caso aquático pelo fitoplâncton, e vão sendo transmitidos ao longo de toda a cadeia alimentar. Nenhum desses seres vivos consegue quebrar esses compostos.

E os golfinhos e as baleias servem como se fossem reservatórios desses compostos. Eles vão sendo acumulados na cadeia alimentar e o topo dela são os golfinhos e as baleias. A gordura que reveste o corpo desses animais, protegendo-os do frio e servindo como reserva de alimento, tem uma afinidade muito grande por esses compostos. Assim, eles ficam acumulados em seu corpo. Ao se analisar essa camada de gordura, podemos ter uma idéia da qualidade do meio em que vivem, de contaminação do meio. Essas análises mostram como os cetáceos podem ser bioindicadores da qualidade do meio.

IHU On-Line – Que peculiaridades as águas de Paranaguá têm para causar essa doença?

Marcos de Oliveira Santos – Temos uma preocupação grande quanto ao Porto de Paranaguá (PR), considerado o segundo maior do Brasil, pois está localizado de frente para o estuário. Recentemente, em 2006, houve uma explosão de um navio petroleiro, com o vazamento grande de óleo na região, o que afeta a biota. Não estamos preocupados apenas com os cetáceos que estudamos, mas com a saúde humana. Se diversos organismos vivos que habitam o estuário, como peixes e crustáceos que são ingeridos pelos seres humanos, como caranguejos e camarões, estiverem contaminados, a saúde das pessoas será afetada. No Brasil, nos últimos dez anos, infelizmente virou uma mania nacional o uso de áreas estuários de manguezais serem destinadas para a maricultura [5], sobretudo cultivando camarão e, pior ainda, camarões que não pertencem à fauna brasileira, adquirindo maior preço de mercado por essa razão.

Isso causa um grande impacto para as espécies viventes no espaço natural, porque os camarões exóticos, trazidos para cá, podem trazer patógenos aos quais nossa fauna de camarões não está habituada. Isso pode dizimar os camarões locais. Em segundo lugar, esses crustáceos podem fugir dos locais de cultivo e depredar a fauna local. Está se introduzindo uma fauna exótica na fauna brasileira, e muitos problemas podem surgir a partir disso. Em terceiro lugar, aponto a utilização de antibióticos. Esses produtos, quando adentram a natureza, nem sempre causam o bem-estar de organismos vivos. Muito pelo contrário. Em muitas situações eles podem ser deletérios. No caso da carcinicultura [6], no Brasil, em áreas de manguezal e estuário, há uma preocupação enorme, pois há uma privatização de lucros (poucas pessoas enriquecem com isso), e uma socialização de prejuízos. São milhares de pessoas que dependem do manguezal, do estuário para sua subsistência, para vender camarão para sustento próprio e que serão afetadas com isso. A tendência mundial é que, após alguns anos, essas áreas estejam poluídas e inutilizadas. Haverá poucas pessoas ricas e muitas pessoas prejudicadas sem ter a possibilidade de restaurar aquele ecossistema da forma como ele era anteriormente.

Nosso trabalho serve como uma bandeira de conservação. Estamos tentando, junto com outros cientistas que trabalham com manguezais, com pesca, mostrar à sociedade, principalmente no caso da divulgação da mídia escrita e falada, a importância da preservação dos ecossistemas. É importante divulgar a pesquisa científica entre o meio acadêmico, mas ela também precisa ser divulgada entre a sociedade. Essa descoberta, portanto, é muito importante no que diz respeito à conservação da natureza e da própria espécie humana, o que chamamos de ecologia humana. Eu gostaria de me alimentar de um peixe saudável, que não tenha patógenos introduzidos no meio por poucas pessoas que desconhecem as leis de conservação da natureza. Essa é nossa grande preocupação.

Sabemos que temos um grande porto em Paranaguá, e temos receio da forma como ele é manejado. Sabemos que, em algumas localizações, não apenas no estuário de Paranaguá, mas também no de Cananéia (SP), que existem pessoas que já tiveram seu cultivo de camarão lacrado pelo órgão de fiscalização, mas que este foi reaberto porque falta fiscalização. Ouvimos as dificuldades do órgão de fiscalização quanto à falta de veículos, funcionários e estrutura para as vistorias. Quano essas não acontecem as pessoas se aproveitam. Pessoas pegam áreas naturais, investem em produção, contaminam o meio, fazem seu lucro e depois “se mandam” dali. Essa é uma potencial fonte de contaminação para os cetáceos que estudamos.

IHU On-Line – Que tipo de consequências essa doença traz para o ecossistema local?

Marcos de Oliveira Santos – Sabemos que uma doença como a lobomicose, que já foi detectada nesses golfinhos, pode afetar seu sistema imunológico, tornando-os suscetíveis a qualquer patologias que apareçam no meio. Os animais ficam menos resistentes. Sabemos, também, de um caso de transmissão da lobomicose de um golfinho de cativeiro para um treinador. Desconhecemos se isso é raro, se pode se tornar comum, mas alertamos para os casos de atendimento de animais encalhados vivos e para os programas de natação com golfinhos. Muitas pessoas vão a Cancun (México) e querem, de todo jeito, nadar com os golfinhos nos tanques. Ainda são desconhecidas as formas de contágio de doenças desses animais nos seres humanos. Então, Van Bressem enfatiza em seus trabalhos que estamos “engatinhando” ainda no conhecimento da etiologia, das características dessas doenças. É importante, primeiro, ter atenção ao que está acontecendo. Ligamos o sinal amarelo. A partir daí, é preciso investir todas as formas possíveis em pesquisa científica para que se conheça melhor os caminhos dessas doenças não apenas para a natureza, mas também para o ser humano.

IHU On-Line – De que forma essas fazendas de camarão contribuem para o alastramento e até agravamento da doença?

Marcos de Oliveira Santos – Pode ser que alguns desses camarões trazidos para o Brasil não tenham passado por uma inspeção adequada e que tragam patógenos em sua carapaça. Quando esses animais não passam por um período de quarentena adequado, esses patógenos adentram a natureza, afetando o fitoplâncton, chegando às ostras, caranguejos e camarões que vivem na fauna local, o que afeta os humanos que consomem essa carne. Com relação ao porto, nossa preocupação é em relação ao condicionamento de todo o material que por ele passa. Seria muito importante que todos os portos brasileiros tivessem cuidado não só no transporte, mas quando os materiais fossem descarregados, realizando as inspeções adequadas.

Outra preocupação de entrada desses patógenos na costa brasileira é através do que chamamos de água de lastro. Navios de grande porte, quando vêm trazer containers para importação, trazem água dentro de sua base para controlar o peso. Essa água geralmente é carreada em seu país de origem. Quando a embarcação chega ao porto, a água é liberada para controlar o peso. Essa é outra forma dos patógenos entrarem em nosso sistema costeiro, e vice-versa. O navio retira água de nosso país e volta para sua origem carregando alguns potenciais patógenos daquilo que chamamos de água de lastro.

IHU On-Line – Inúmeros mistérios rondam ainda a vida dos botos marinhos. Como os estudos desses animais contribuem para compreendermos a vida no mar?

Marcos de Oliveira Santos – Na realidade, há muitos mitos em torno desses animais. Os golfinhos, por serem mamíferos, animais de sangue quentes, extremamente adaptados ao mar, estão muito próximos dos seres humanos na escala evolutiva. Eles têm uma afeição que atrai muito a curiosidade das pessoas. A grande maioria das espécies parece estar sorrindo em função da feição de sua face. Acabam, assim, atraindo a curiosidade humana. Muitos mitos atrapalham esses animais de diversas formas. Há uma história na Amazônia que fala em capturar os botos cor-de-rosa e coletar sua genitália para atrair o sexo oposto. Isso é muito prejudicial para a conservação da espécie. Ainda hoje se encontram à venda na Amazônia, em alguns mercados, esses produtos, como se eles funcionassem...

Outra preocupação nossa diz respeito às pessoas terem vontade de nadar com esses animais. Infelizmente, há lugares no Brasil, como a Amazônia, em que é incentivada a natação com os botos. Acontece que essa natação pode trazer grandes problemas, um deles, como mencionamos, é a transmissão de patógenos, seja de humanos para os botos, seja dos botos para os humanos. Outro risco é o de acidentes. Não podemos esquecer que os golfinhos, em geral, estão adaptados a um meio no qual não interagem com mãos, mas com o corpo e a boca. Então, entre eles, se batem bastante no corpo, com a nadadeira caudal, se mordem e essa é a forma com que eles interagem socialmente. Num tanque com pessoas, o comportamento será o mesmo. O número de acidentes é cada vez maior quando lidamos com essas interações entre golfinhos e seres humanos em ambiente seja natural, mas principalmente fechado, o que é ainda pior.

Isso porque os animais estão submetidos a estresse. Então, peço aos leitores desta entrevista que apreciam os golfinhos, que observem-os à distância. Em países como os Estados Unidos, isso é uma lei. Os animais devem ser observados a distância. Tocar, abraçar, segurar um animal desses por lá gera multa. Talvez tenhamos que ter um processo como esse, no Brasil, para que se aprenda a respeitar a natureza. É melhor que se respeite observando à distância do que tentando abraçar ou beijar um golfinho, o que é o sonho de diversas pessoas.

IHU On-Line – Problemas ambientais, como os causados pelo aquecimento global, podem agravar essa doença entre os botos e outros animais marinhos?

Marcos de Oliveira Santos – Ainda não temos tempo nem base de dados suficientes para estabelecermos uma relação entre o aquecimento global com essas patologias. Em diversos trabalhos publicados por Van Bressem pede-se que se dê atenção a isso e que se acompanhe uma possível influência do aquecimento global na transmissão dessas doenças ou um aumento de suas ocorrências ao redor do globo terrestre. Porém, é muito cedo para termos uma conclusão a respeito. O importante é monitorar e estar atento.

Notas:

[1] Marie-Françoise Van Bressem é uma veterinária holandesa. Atualmente, trabalha no Centro de Pesquisa de Cetáceos do Peru.

[2] A Lobomicose é infecção crônica que provoca lesões cutâneas entre a pele e epiderme sem comprometimento visceral.

[3] Os compostos organopersistentes são substancias com capacidade mutagênica utilizados na agricultura e indústria.

[4] Em biologia marinha e limnologia chama-se fitoplâncton ao conjunto dos organismos aquáticos microscópicos que têm capacidade fotossintética e que vivem dispersos flutuando na coluna de água.

[5] Maricultura é o cultivo de organismos marinhos em seus habitats naturais, geralmente com objetivos comerciais, atividade que cresce a uma taxa aproximada de 5 a 7% anualmente em todo o mundo.

[6] Carcinicultura é a técnica de criação de camarões em viveiros, muito desenvolvida, atualmente, no litoral brasileiro do Rio Grande do Norte.


Fonte: IUH