Pesquisa constata diferenças físico-químicas entre estuário de Santos e margem continental norte e permite montar cenários sobre poluição

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Walter Pinto

Funcionário da UFPA há 23 anos, Gilmar Wanzeller Siqueira tornou-se um caso raro na categoria técnico-administrativa: possui título de doutor em ciências. Só existem cinco num universo de mais de 2 mil técnicos. Em dezembro de 2004, Wanzeller entrou para o seleto grupo ao defender tese de doutoramento em Oceanografia Química e Geológica, no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo.

A tese que defendeu é um desdobramento dos estudos realizados à época do mestrado, inteiramente voltado ao estudo da química ambiental de uma das regiões marinhas mais poluídas do Brasil, a Baixada Santista, no Estado de São Paulo. No doutorado, Wanzeller trabalhou com duas regiões diametralmente opostas do ponto de vista antrópico, a velha conhecida Baixada Santista e a margem continental norte do Brasil, na confluência com a foz dos rios Amazonas e Pará. Enquanto a primeira recebe enorme quantidade de material antrópico despejado diariamente por seu parque industrial, a segunda mantém-se como um verdadeiro laboratório natural, livre de agentes químicos poluidores.

Trabalhar com áreas absolutamente diferentes permitiu ao pesquisador observar o comportamento ambiental, estabelecer cenários futuros e propor alternativas para reduzir prováveis impactos ambientais nos ecossistemas estudados. O trabalho de Wanzeller seguiu uma linha interdisciplinar, enveredando-se por três vertentes: a Oceanografia, a Química Ambiental e a Geoquímica Marinha.

Nos compartimentos águas e sedimentos do Estuário de Santos, o pesquisador constatou a presença de grandes quantidades de elementos metálicos, entre os quais o arsênio, o chumbo, o crômo, o zinco, o cádmio e o mercúrio, responsáveis em grande parte pela contaminação do sistema local. Foi constatado também um aumento excessivo de nutrientes nas águas e sedimentos, indicando um processo de eutrofização para a região estudada.

Santos é uma das cidades mais industrializadas do Brasil. Empresas como Down Química, Carbocloro, Cosipa, Rhodia, Petrobrás, Santista de Papel, Ultrafértil Cubatão, Unions Carbide, entre outras, estão instaladas na região. Lá também está instalado o porto de Santos, um dos maiores da América Latina. Apesar da atual legislação e do monitoramento realizado pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo - Cetesb, a carga de poluentes orgânicos e inorgânicos lançada no sistema local continua acima do patamar admissível pelas leis internacionais.

No outro lado do Brasil, a situação é completamente diferente. Sem concentração de indústrias, os rios Amazonas e Pará agem como os grandes fertilizadores da vida marinha sobre a plataforma continental. O ecossistema ainda está bastante preservado, apesar da anomalia encontrada para o arsênio e o chumbo.

Do ponto de vista da Oceanografia, Wanzeller constatou que as duas regiões também possuem condições oceanográficas muito distintas. Na margem continental norte, os materiais depositados pelas descargas dos rios são desviados no sentido noroeste pela corrente costeira em direção ao cabo Orange, no Amapá, até atingir o Caribe. "A pluma do rio Amazonas é desviada no sentido noroeste. Este é um dado já estudado e investigado por outros pesquisadores nacionais e internacionais. Eu apenas constatei o fato", diz Wanzeller.

No estuário de Santos, o material vai até a montante dos canais de Santos e São Vicente, sofre a influência de maré e retorna. Toda a carga poluidora despejada pelas indústrias acaba retornando. "A baía de Santos recebe grande quantidade de efluentes do emissário submarino, que, em função do comportamento da circulação oceânica lá existente, volta à praia", relata o pesquisador. "Isso explica porque as águas das praias santistas, em determinada época do ano, apresentam níveis baixos de balneabilidade".

Wanzeller explica que um dos maiores índices de biodiversidade do planeta ocorre ao longo das plataformas continentais, em torno de 200 metros de profundidade. Na foz do rio Amazonas forma-se uma área muito rica em nutrientes. A descarga fluvial despejada aumenta a fertilidade das águas e, conseqüentemente, a biomassa da região, fato que pode explicar a grande quantidade de pescado existente. O estuário de Santos apesar de estar situada em margem continental, apresenta baixa biodiversidade. De maneira geral, os organismos acabam migrando para regiões menos poluídas.

O grau de discrepância entre as regiões pode ser aferido pelo nível de mercúrio. Enquanto na margem continental norte, o valor não supera a 0,050 mg kg-1; no Estuário de Santos, esse valor sobe para 1 mg kg-1. A pesquisa estudou a distribuição metálica nos sedimentos coletados. Elementos extremamente conservativos no ecossistema, os metais pesados ocasionam um processo bioacumulativo na cadeia alimentar. No estuário santista, os resíduos das indústrias contendo mercúrio são lançados no sistema aquático e acabam migrando para os sedimentos. A metilação atinge, então, a sua forma mais tóxica (metil-mercúrio), posteriormente, esse metal é incorporado por organismos marinhos - peixes e crustáceos. Há na região um grande número de caiçaras, pescadores ribeirinhos que abastecem a feira livre da cidade. A ingestão desse pescado contaminado pode causar doenças ao organismo humano, entre as quais, sensação de depressão periférica e disfunção dos membros e do modo de andar.

Na margem continental norte não há registro de problemas semelhantes. "De maneira geral, na região amazônica, o maior problema ambiental ainda é a falta de saneamento básico", afirma o pesquisador.

Indústrias utilizam processos antiquados

As análises realizadas por Wanzeller no Laboratório de Nutrientes, Macronutrientes e Traços no Oceano, do Instituto Oceanográfico da USP, e as que enviou para a Universidade de Sorbonne, em Paris, indicaram que os problemas antrópicos observados no estuário de Santos são causados pelos processos obsoletos de produção das indústrias locais. "Uma medida que pode mitigar o problema é a troca do processo industrial", afirma. Mas essa é uma medida de alto custo, reconhece.

A indústria Carbocloro, por exemplo, em pleno século XXI, para fabricar soda e cloro, utiliza células de mercúrio, muito embora tal tecnologia já esteja superada, há décadas, por agredir violentamente o meio ambiente. Se trocasse por um processo mais atual, o uso de células de membrana, o nível de poluição ambiental no estuário seria reduzido drasticamente, afirma Wanzeller. No entanto, além de caro, a troca provocaria uma pausa no processo de produção, algo impensável, mesmo que temporária, para qualquer indústria.

Fonte: UFPA


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