Lixo, cartão de visita para 2016

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11/01/2010 - Bruno Lousada/Estadão

Torben e Scheidt protestam contra poluição na Baía de Guanabara, palco da competição que começa amanhã

INDIGNAÇÃO - Para Torben Grael (de boné), será preciso melhorar as condições da água na Baía para realizar a competição de vela na Olimpíada de 2016 : "Do jeito que está..."

De longe, não há dúvida: o visual é bonito. De perto, a certeza é a de que as aparências enganam. A Baía de Guanabara agoniza, vítima da poluição dos esgotos domiciliares e industriais, além dos derrames de óleo e outros dejetos. E é justamente ali que vão ser realizadas, a partir de amanhã, pelo menos uma das seis regatas do Campeonato Mundial da Classe Star, competição que envolve 81 barcos de 20 países.

Uma situação que deixa indignado o velejador Torben Grael, o brasileiro com o maior número de medalhas olímpicas (cinco, no total). "Tem tanto lixo na Baía que é até sacanagem fazer a competição lá. Fora dali (em mar aberto) tem muito lixo também, porém menos. É um fator muito negativo e um péssimo cartão de visita para quem vai organizar a Olimpíada de 2016", criticou o atleta, uma das principais atrações do Mundial. "Se quiser realizar a competição de vela no Rio (nos Jogos de 2016), tem de melhorar bastante. Do jeito que está..."

Robert Scheidt, outro iatista de ponta do País na disputa do Mundial, não fugiu da polêmica e disse que o alerta tem de ser ligado desde já para 2016. "Se o estrangeiro velejar aqui e enganchar no lixo, não vai gostar. É um sinal de que a Baía de Guanabara precisa melhorar as suas condições para ser sede dos Jogos Olímpicos."

Scheidt ressalta que o Mundial é o primeiro grande evento de vela no Rio após a cidade ganhar o direito de realizar a Olimpíada e diz que providências têm de ser tomadas. "É um grande alerta. Infelizmente, não tem o que fazer agora. Faltam poucos dias para a primeira regata", disse. "Um saco plástico pode fazer a velocidade do barco diminuir. É bem frustrante. É como se puxasse o freio de mão do carro", explicou, convicto de que essa é a maior preocupação dos competidores.

Em entrevista ao Estado em 2008, o velejador Ricardo Winick, o Bimba, disse já ter encontrado "cadáver, bicho morto, porta de geladeira, sofá e televisão" na Baía de Guanabara.

Diretor de vela do Iate Clube do Rio, na Urca, e um dos organizadores do Mundial, Ricardo Ermel admitiu que a poluição da Baía pode atrapalhar o campeonato. "Correr em Búzios, em Angra dos Reis e em Ilhabela é muito melhor tecnicamente, mas os clubes dessas regiões não comportam um campeonato desse porte. Aqui temos estrutura para isso."

E a sujeira da Baía de Guanabara? "Na minha visão, já foi pior. Mas, realmente, tem muito lixo flutuando. Apesar disso, soube que a qualidade da água melhorou. Tem risco de pegar micose? Tem. A água está suja", admitiu.

Ermel afirmou, no entanto, que o problema não é exclusivo da capital fluminense. "Em Miami, as algas se soltam e grudam no barco. E, na China, o mar está sujo também. Não adianta só culpar o governo. A população também tem culpa. Ela joga lixo nas calçadas, na areia das praias e tudo vai para o mar."

Por meio de sua assessoria, o Comitê Organizador dos Jogos de 2016 informou que o projeto para as competições de vela da Olimpíada do Rio foi aprovado pela Federação Internacional de Vela (Isaf) e pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).

O comitê acrescentou ter "plena confiança" na qualidade do projeto de despoluição da Baía de Guanabara que vem sendo desenvolvido pelo governo estadual em parceria com a iniciativa privada e terá investimentos até 2016. E destacou que, nos Jogos Pan-americanos do Rio, em 2007, as competições de vela foram realizadas na Baía de Guanabara "sem qualquer problema".

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