Águas de plástico

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04/03/2010 - Por Daniel Santini/Folha Universal

Do ventre aberto de uma tartaruga, a bióloga Rita Mascarenhas arranca o plástico meio enrolado, sujeira que provavelmente matou o animal. O pedaço fino que entupiu o intestino é longo e travou o aparelho digestivo. Não foi a primeira e nem será a última tartaruga morta por confundir um pedaço sujo de plástico com a alga que iria se alimentar.

A estimativa da especialista é de que 86% das espécies de tartarugas marinhas existentes sofram graves problemas pela ingestão de plástico. Segundo Rita, pelo menos 276 espécies da fauna marinha são regularmente afetadas, incluindo aves, mamíferos, peixes e crustáceos.

O plástico está tão espalhado nos mares, lagos e rios do planeta que, para animais, tem sido difícil diferenciar o que é comida e o que é lixo. Não existe levantamento preciso do tamanho do estrago. A estimativa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) é de que, a cada quilômetro quadrado de oceano, existam 13 mil pedaços de plástico.

Praia do Bueno no Guarujá/SP. Ao contrário de outras praias com ruas de acesso, esta e outras praias não são limpas pela prefeitura, refletindo a enorme quantidade de lixo plástico (a metade que flutua) trazido pelo mar.
Crédito: Instituto EcoFaxina

Diferentes pesquisas indicam que o material compõe mais de 80% do lixo marinho, e, em algumas regiões, até mais de 90%. Não é por acaso que virou rotina tartaruga confundir saco de lixo com alga.

“Temos encontrado regularmente pedaços de plástico no intestino e estômago de tartarugas mortas”, afirma a pesquisadora, que coordena a Guajiru, associação que organiza estudos, preservação e educação ambiental na Paraíba. “A maioria está morrendo por ingestão de plástico. A situação é gravíssima”, diz o biólogo da Universidade Estadual da Paraíba Douglas Zeppelini Filho, marido de Rita e também integrante do grupo.

Ele explica que, além da obstrução do aparelho digestivo, os animais também morrem por desnutrição devido à ingestão de plástico. Muitos dos que se alimentam de plâncton, conjunto de seres vivos que flutuam na água, confundem as micropartículas e acabam absorvendo menos nutrientes e calorias do que precisam. “Além do plástico que é visível, há o que vai sendo quebrado em pedaços menores, que a gente nem vê, mas que não deixa de ser plástico. Da sardinha à baleia, todos os animais que se alimentam filtrando a água do mar, ingerem plástico demais. É como se um homem comesse uma maçã de plástico e uma normal na hora do almoço. Vai mastigar o mesmo, mas terá metade da energia”, afirma. “Não dá para digerir plástico de forma alguma. Ele se acumula e provoca a morte dos animais”, completa.

De olho nas tartarugas das praias de Intermares, em Cabedelo, e Bessa, em João Pessoa, o casal passou a analisar também o lixo encontrado na areia e tem descoberto na Paraíba embalagens de países distantes como a Grécia. O lixo não respeita fronteiras, quando se trata de oceanos.

E é assim que se formaram no meio dos principais oceanos do planeta verdadeiras ilhas de garrafas, tampinhas, copos, sacos e uma infinidade de outras embalagens e produtos feitos para serem descartados após o uso.

Há pelo menos cinco zonas de convergência em que a situação é crítica. Isoladas por correntes que agem como um redemoinho, reunindo tudo que entra no raio de alcance, essas áreas estão sendo analisadas por expedições. Na que se formou no Sul do Oceano Pacífico, a estimativa é de que para cada quilo de plâncton haja nada menos do que 6 quilos de plástico. Pobres tartarugas.

O movimento constante das marés e correntes faz com que seja possível hoje encontrar dejetos plásticos mesmo em regiões isoladas e praias desertas.

Como uma das propriedades do plástico é a durabilidade, cada saquinho pode ficar décadas flutuando. Dessa forma uma embalagem de macarrão italiana vem parar em João Pessoa, e que, junto do plástico contaminado, outros poluentes, como pesticidas, se espalham pelos mares.

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