Corais em luta pela sobrevivência

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23/03/2010 - Stephen Leahy/IPS

Delegados de 175 países discutem a nova lista de espécies de fauna e flora em risco de extinção para protegê-las do comércio indiscriminado. Os corais ocupam um lugar de destaque.

A sobrevivência dos corais, gravemente ameaçada pela acidificação dos oceanos, pesca de arrasto e pelo comércio de joias e enfeites, depende em grande parte de uma conferência que acontece em Doha, capital do Catar. A extração de exemplares centenários movimenta um negócio internacional multimilionário. São tão belos que ganham a forma de colares de US$ 25 mil ou são exibidos em luxuosas mansões.


Barco de arrasto retirando um coral vermelho gigante
Foto: Greenpeace/Pullman

Para garantir que haja corais para as gerações futuras, Estados Unidos e a União Europeia propõem incluir as variedades vermelha e rosada (Corallium spp. e Paracorallium spp.) na lista de proteção da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Silvestres (Cites). Os 175 países signatários da Cites estão reunidos entre os dias 13 e 25 deste mês, em Doha, onde votarão a proteção dos corais e de outras 40 espécies, entre elas o atum de barbatana azul.


“Os corais vermelho e rosado estão entre as matérias-primas mais valiosas. Incluí-los no Apêndice II da Cites não proibirá seu comércio, simplesmente o regulará”, explicou Kristian Teleki, vice-presidente para Iniciativas de Ciências da SeaWeb, uma organização não governamental internacional que trabalha pela conservação dos oceanos. “Neste momento são explorados de modo insustentável para o comercio de joias”, disse Teleki ao Terramérica, de Doha.


Cerca de 32 mil espécies, como a iguana verde (Iguana iguana), o mogno (Swietenia macrophylla) e o urso negro (Ursus americanus) figuram no Apêndice II da Convenção. Ao colocar uma espécie no Apêndice I, como proposto para o atum de barbatana azul, todo seu comércio passa a ser ilegal. “Por mais de 20 anos, os países do Mediterrâneo falam em implementar regulamentos para o coral, e nada foi feito”, disse. Os corais vermelho e rosado são encontrados principalmente no Mar Mediterrâneo e no Oceano Pacífico, e estão entre os mais valiosos e comercializados do mundo. Podem parecer plantas, mas na verdade são colônias de pequenos animais, pólipos, que formam os exoesqueletos de carbonato de cálcio que formam os arrecifes.


É precisamente o esqueleto, que permanece depois que morre o pólipo, que é usado com fins comerciais. Os corais vermelho e rosado são animais marinhos longevos, de lento crescimento, que durante séculos foram alvo de intensa pesca para satisfazer a demanda mundial de joias e enfeites, disse Teleki. Os vermelhos podem crescer 50 centímetros, porém, mais de 90% de suas colônias no Mediterrâneo têm de três a cinco centímetros de altura e menos da metade é suficientemente adulto para se reproduzir. Sabe-se muito menos sobre as populações do Pacífico, que ficam em águas do Japão e de Taiwan, ilhas Midway e Havaí.

A extração mundial de corais rosado e vermelho caiu entre 60% e 80% desde a década de 80, e o tamanho dos capturados também baixou significativamente, disse Andy Bruckner, do Escritório Nacional de Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos. Essa redução de tamanho nos corais vermelhos do Mediterrâneo representa perda de capacidade reprodutiva das espécies entre 80% e 90%, porque os corais maiores têm mais pólipos e, portanto, podem produzir mais colônias novas, disse Bruckner em um comunicado.


O comércio de aquários domésticos também consome grande quantidade de corais, pois são usados para recriar pequenos arrecifes como decoração. “Essa demanda levou a uma explosão do comércio de corais vivos, com crescimento anual entre 10% e 50% desde 1987”, afirmou Bruckner em um estudo publicado em dezembro na revista PLoS One. Nessa matéria estima que tal comércio movimente entre US$ 200 e US$ 330 milhões por ano, e que segue em crescimento. Porém, é dada pouca atenção aos impactos sobre os arrecifes, acrescentou. “Precisamos alguma forma de proteção para estes corais, a fim de que os governos e o público compreendam sua importância”, disse Teleki.


E isto implica um grande esforço, disse Matt Patterson, ecologista marinho do Serviço de Parques Nacionais dos Estados Unidos e coordenador da South Florida and Caribbean Monitoring Network. Em 2005, 90% dos corais das norte-americanas Ilhas Virgens esbranquiçaram. Como consequência, 60% dos arrecifes morreram. Quando foram solicitados recursos para ajudar a proteger os arrecifes que restavam, o governo norte-americano nada fez, disse Patterson ao Terramérica, de seu escritório em Miami. “Imaginemos os protestos e as respostas se 60% da Estátua da Liberdade fosse destruída”, disse.


Métodos ilegais de pesca, como o uso de explosivos, também contribuem para a diminuição das espécies

Os arrecifes mantêm entre 25% e 33% das criaturas viventes dos oceanos. Cerca de um bilhão de pessoas dependem direta e indiretamente deles para sua subsistência. Os arrecifes coralinos não fornecem apenas alimento, como também reduzem os impactos de ciclones, furacões e atenuam as ondas. Há poucos anos, os cientistas pensavam que o excesso de pesca era a principal ameaça para os arrecifes, mas agora sabem que é a mudança climática, que aquece os oceanos e os acidifica.

O lixo e o esgoto exercem uma forte pressão sobre os bancos de corais

Reduzir as capturas de corais, eliminar da terra os resíduos derivados da sedimentação e contaminação, e impedir que os barcos ancorem em áreas de arrecifes pode ajudar muito a proteger estas formações da mudança climática, disse Patterson. “Os corais são ecossistemas em perigo. A menos que priorizemos sua proteção, podem deixar de existir enquanto estivermos vivos, o que, na verdade, me assusta”, acrescentou.

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