O calor mata corais caribenhos

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15/09/2010 - Stephen Leahy / IPS

A parte branca é o esqueleto calcário já sem vida

O Mar do Caribe Sul pode estar sofrendo o início de uma maciça mortandade de corais, afirmam cientistas.

UXBRIDGE, Canadá, 13 de setembro (Tierramérica).- As águas do Mar do Caribe estão mais quentes do que nunca, e os corais da região estão ficando brancos e começam a morrer, alertam especialistas. O fenômeno pode ser observado sobretudo nas Antilhas Menores, no Caribe Sul, disse Mark Eakin, coordenador do programa Coral Reef Watch, da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).

A temperatura está mais elevada do que em 2005, quando um grave caso de embranquecimento afetou boa parte do Caribe. Quase 60% dos corais morreram nessa oportunidade nas norte-americanas Ilhas Virgens, disse Mark ao Terramérica. Nessa região, a temperatura da água atinge seu ponto máximo entre setembro e outubro.

É provável que a área afetada pelo embranquecimento de corais aumente para Leste e chegue até a Nicarágua, passando pela Ilha La Española, onde ficam Haiti e República Dominicana, até Porto Rico e Antilhas Menores, e para o Sul ao longo das costas caribenhas do Panamá e da América do Sul, alertou no mês passado a Coral Reef Watch.

“Isto pode ser pior do que em 2005, a menos que algumas tempestades tropicais misturem as águas quentes da superfície com as mais profundas e frias”, ressaltou Mark. Os arrecifes coralinos são encontrados em menos de 1% dos oceanos do mundo, mas abrigam entre 25% e 30% de todas as espécies marinhas. Aproximadamente um bilhão de pessoas depende direta e indiretamente deles para subsistir.

É um dos ecossistemas essenciais para a sobrevivência humana, diz a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Um pedaço colorido de coral é uma colônia de milhares de diminutos animais, os pólipos, que produzem em torno deles esqueletos de pedra calcária em forma de taça, utilizando o cálcio da água marinha.

Geração após geração de pólipos que vivem, constroem e morrem vão formando os arrecifes, um hábitat para esta e muitas outras espécies de flora e fauna. As cores dos corais são proporcionadas pelas algas zooxanthellae, que cobrem os pólipos, fornecem a eles alimentos – açúcares e aminoácidos – e em troca obtêm um lugar seguro para viver com luz suficiente para sua fotossíntese.

Esta perfeita relação simbiótica, que funciona há 250 milhões de anos, se quebra quando a água esquenta muito ou é contaminada. As algas morrem, o que pode ser visto pelo esbranquiçamento, e os pólipos ficam sem alimento e se tornam muito vulneráveis às enfermidades. Antes da década de 1980, foi registrado um único grande episódio de esbranquiçamento. A elevação de um ou dois graus da temperatura máxima de verão basta para disparar o processo.

Quanto mais tempo durar essa temperatura, maior é a descoloração. Os corais podem se recuperar se a situação se prolongar algumas semanas. O aquecimento da atmosfera, derivado da emissão de gases-estufa liberados pela queima de combustíveis fósseis, está aquecendo gradualmente os oceanos. Em julho, a temperatura das superfícies marinhas registrou pico de 62 décimos de grau acima da média do Século 20, segundo a NOAA.

No sudeste da Ásia, os oceanos esquentaram quatro graus acima do normal, em maio. Embranqueceram entre 60% e 80% dos corais de várias áreas próximas de Indonésia, Vietnã, Sri Lanka, Tailândia e Malásia, e alguns morreram, segundo estudos do Programa da Indonésia da Wildlife Conservation Society.

Acredita-se que desta vez o esbranquiçamento será pior do que em 1998, quando acabou com 30% dos corais dos oceanos Índico e Pacífico ocidental e central, afirmou esta organização. Naquele ano, 16% dos corais do mundo morreram. Até a década passada, a sobrepesca, a contaminação e o desenvolvimento econômico costeiro eram as principais causas das mortes dos corais. Estas ameaças persistem, apesar da criação de áreas marinhas protegidas e de reservas onde a pesca é proibida.

Apesar das boas intenções, estes esforços não são efetivos, disse ao Terramérica o ecologista marinho Peter Sale, do Instituto para a Água, o Meio Ambiente e a Saúde da Universidade das Nações Unidas. “A maioria das áreas marinhas protegidas não funciona. As chamamos de parques de papel”, acrescentou. Apresentam problemas de administração e de projeto e não consideram a realidade de que os arrecifes não podem existir em isolamento.

Se o desenvolvimento costeiro gera contaminantes ou sedimentos que fluem para o oceano, os arrecifes próximos estarão acabados, porque se encontram em uma área marinha protegida, disse Peter. Também há uma assombrosa escassez de dados científicos. “Não sabemos como deveria ser cada uma dessas áreas para apresentar resultado efetivo”, afirmou.

No Caribe, a pesca mais abundante é a da lagosta. “Mas nenhum dos países da área sabe de onde procedem as suas. Assim, como manejar adequadamente esse recurso?”, questionou. Após a desova, as larvas da lagosta flutuam livremente cerca de nove meses no mar, viajando centenas de quilômetros de distância do lugar de nascimento, segundo novas pesquisas.

Estas descobertas fazem parte de um projeto que elaborou o guia “Preserving reef connectivity: a handbook for marine protected area managers” (Preservando a conectividade dos arrecifes: manual para administradores de áreas marinhas protegidas), informou Peter. A proteção local e o manejo dos corais são essenciais para que resistam aos efeitos da mudança climática: o esbranquiçamento e a acidificação das águas, que enfraquece o esqueleto calcário do arrecife, enfatizou.

No começo dos anos 1980, os habitantes de duas pequenas ilhas das Filipinas recuperaram seus corais e sua pesca, que estavam à beira da extinção. Conseguiram isso criando zonas de proibição para pesca e manejando-as de maneira adequada. Hoje capturam mais peixes com menos esforço e geram boa renda com o turismo, disse Peter. É necessário que as áreas marinhas protegidas do Caribe sejam manejadas em uma rede regional vinculada à costa continental, acrescentou. “Se for bem feito, serão beneficiados corais, pesca e o entorno costeiro”, concluiu.
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