Sobrevivendo com bolacha de lama

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01/09/2010 - Wadner Pierre/IPS

Porto Príncipe, Haiti, 31/8/2010, (IPS) - Às seis da manhã em Cité Soleil, o bairro mais pobre da capital do Haiti, o Sol já apareceu. É o começo de outro dia de trabalho para Lurene Jeanti, que prepara bolachas com manteiga, sal e lama.

Ela se dedicou, nos últimos oito anos, a preparar estes produtos para vender aos seus vizinhos. As bolachas de lama são consumidas especialmente pelas grávidas, já que são importante fonte de cálcio. “A lama me ajuda a manter meus filhos”, disse Lurene.

As bolachas de lama garantem a sobrevivência no Haiti

Esta mulher pequena, mas forte, é uma das milhares de haitianas que emigraram do campo para a capital na última década. Abandonou seu povoado para buscar uma maneira de manter seus cinco filhos. “Não têm pai. Sou a mãe e o pai para eles”, contou Lurene à IPS. O Haiti não conta com leis que protejam as mães solteiras. Lurene cresceu em Anse D’Hainault, localidade do sudoeste haitiano.

Ao contrário de outras áreas rurais, as árvores ainda povoam as montanhas do lugar, e nas pequenas mesetas ainda se planta batata doce e cacau. “Conhece Anse D’Hainault? É realmente bonito. Deveria ir. Costumava plantar. Sou uma agricultora”, disse Lurene. Porém, sua renda não era suficiente. O desemprego disparou em grande parte das zonas rurais haitianas.

Agora Lurene vive em Cité Saint Georges, pequeno distrito dentro de Cité Soleil. O canal de água que atravessa o bairro está cheio até o topo de garrafas plásticas. Ela senta em uma esquina suja perto da entrada de um estreito corredor onde as pessoas se aproximam para comprar as bolachas ou a água vendida por um vendedor ao seu lado. A maioria das casas está na metade da construção com blocos de concreto.

Durante seus primeiros dois anos em Porto Príncipe, Lurene tentou se arranjar com os produtos que levara de Anse D’Hainault, mas não conseguiu. Então, começou a cozinhar e vender as bolachas. A mina onde obtém o lodo fica no centro do país. Uma fabricante como Lurene deve comprar a terra de intermediários.

Lurene quer voltar a Anse D’Hainault para cuidar de sua mãe. “Quero voltar para minha casa. Minha mãe está envelhecendo. Tenho que voltar para cuidar dela. Sou sua única filha”, explicou. Contudo, ela está preocupada sobre como manterá toda sua família. “Não posso regressar com 2.500 gourdes. Não me servirão. E estou envelhecendo como minha mãe. Tenho 49 anos”, afirmou.

Lurene sabe que seu caso é semelhante ao de muitas mães solteiras haitianas. “Não sou a única que fábrica bolachas de lama para vender. Muitas fazem o mesmo que eu para manter seus filhos”, afirmou, enquanto apontava para um grupo de mulheres secando bolachas no teto de uma casa.

Laurene Jeanti reflete a situação de centenas de milhares de mulheres haitianas que abandonaram suas casas na esperança de uma vida melhor na capital. Entretanto, com os 1,5 milhão de desabrigados pelo terremoto de 12 de janeiro ainda vivendo em barracas de campanha, seu futuro é incerto. Doadores internacionais prometeram US$ 5,3 bilhões em ajuda para a reconstrução, mas menos de 20% dessa quantia foi entregue.
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