A natureza persiste...

28/09/2010 - Por Taís González / Greenpeace


Com a maior faixa de mangue do planeta, o Brasil tem cerca de 20 mil km² que se estendem desde o nordeste (Cabo Orange – Amapá) até o sul do país (Laguna – Santa Catarina). Neste último sábado, 25 de setembro, no "25th International Coastal Clean-Up Day", oito voluntários do Greenpeace SP foram até Santos, junto do com pessoal do Instituto EcoFaxina realizar a limpeza no manguezal do Jardim São Manoel.

Em Santos, o ponto de encontro com William Schepis, presidente do EcoFaxina, foi em frente à UniSanta, parceira do projeto. Com mais alguns voluntários, seguimos para o local da limpeza, com o ônibus cedido por outra parceira do instituto, a Terracom Construções. No caminho passamos por alguns locais para pegar os materiais doados pela Secretaria do Meio Ambiente (SEMAM) de Santos, para a coleta do lixo, como os sacos plásticos e a balança para pesar os resíduos.


Era inacreditável a quantidade de lixo no mangue, que mais parecia um depósito irregular. Depois de assinarmos o “Termo de Adesão ao Serviço Voluntário” e devidamente protegidos, com botas e luvas, entramos na área. Não foi difícil limpar o local, era tanto entulho, saco, sapatos, pilhas, fraldas, embalagens, entre outros tantos materiais, que difícil foi saber por onde começar!

A mobilização para limpar o mangue juntou voluntários do Greenpeace, do EcoFaxina e pessoas da comunidade que nunca fizeram nenhum tipo de trabalho voluntário, inclusive crianças. Eram cerca de 30 pessoas que, durante 3 horas, aproximadamente, retiraram do local 1 tonelada e 73 quilos de lixo.


Nota

Conhecidos como “raízes do mar”, de “floresta tropical anfíbia”, ou mesmo de “berçário litorâneo”, os mangues são ecossistemas com raras características naturais, devido ao fato de terem altos níveis de biodiversidade, o que é extremamente importante para a defesa da pesca silvestre e da ecologia marinha. De acordo com o Código Florestal (Lei 4.771 de 15 de setembro de 1965), o mangue é uma Área de Preservação Permanente (APP), e a Resolução CONAMA N.º 369 de 28 de março de 2006 estabelece que as áreas de mangue não podem sofrer supressão de sua vegetação ou qualquer tipo de intervenção, salvo em casos de utilidade pública.

Mesmo assim, o mangue está sendo seriamente ameaçado no Brasil. Um dos piores inimigos dos manguezais, além da superexploração dos seus recursos naturais, é a poluição lançada pelas cidades e comunidades locais costeiras. O esforço de voluntários para a limpeza desse importante ecossistema terá sido em vão se a população não se conscientizar da importância e relevância do papel dos mangues na biodiversidade marinha e, consequentemente, na biodiversidade do Planeta. Consumo consciente e descarte racional são sugestões para a preservação da natureza que, insistentemente, persiste...


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O filósofo Gilles Lipovetsky falou sobre hiperconsumismo em evento promovido pela revista Trip

27/09/2010 - Trip

Gilles Lipovetsky durante a palestra
© Emana Imagem & Cultura

Há quem não veja muito espaço, ou utilidade, para a filosofia em um mundo tão cheio de opções. Quando se trabalha tanto, quando se tem 170 canais a cabo, quando seu Twitter pia o dia todo no celular, quem tem tempo para duas horas diretas sobre a análise da paradoxal sociedade de hiperconsumo? Na noite de quarta-feira (22/09), pelo menos 140 pessoas tinham. Em um evento promovido pela Trip em parceria com o Manioca, o espaço de eventos do restaurante Mani, o filósofo francês Gilles Lipovetsky falou a uma plateia de convidados sobre sua interpretação da sociedade de nossos dias.

O professor Lipovetsky é dos mais relevantes e provocativos pensadores da cultura contemporânea. Analisando alguns dos fenômenos mais importantes das últimas décadas, ele esbarra em temas que normalmente passam longe dos olhos dos filósofos: marcas, luxo, consumismo, redes sociais e as consequências emocionais de um mundo pós-pós-moderno. Uma época que ele batizou como hipermoderna se manifesta mais claramente no que Lipovetsky chama de hiperconsumismo. Um termo que pode enganar... hiperconsumismo não significa exatamente consumo exagerado, compulsivo. É algo mais sutil, e mais relevante, do que frenesis em shopping centers. Trata-se de uma mudança crucial no padrão e nas motivações do consumo humano.

Culto às marcas

De acordo com Gilles, “a sociedade de consumo, comumente definida a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, era definida pelo consumo semicoletivo. A família comprava bens para o uso coletivo em casa. Uma TV, um carro, uma linha telefônica eram itens de desejo e status”. O que se vê a partir dos anos 70, mas que acelerou vertiginosamente a partir dos anos 80, sob a tutela americana de Ronald Reagan, foi o consumo dirigido quase que exclusivamente ao indivíduo. “Uma TV, um carro, um telefone por pessoa. E mais do que isso. Um culto às marcas e um desejo coletivo, que transcende classes sociais, por artigos e símbolos que denotem luxo.” Tudo, de acordo com Lipovetsky, para adular o indivíduo que volta suas paixões para si mesmo, seu ego e seu conforto, em um mundo de ideologias coletivas arruinadas.

"Vivemos em uma sociedade paradoxal, que não se equilibra facilmente entre o materialismo e a espiritualidade"

O professor analisa como esse fenômeno transformou as marcas em entidades onipresentes e como essa prioridade ao indivíduo serve aos interesses competitivos do mercado – e moldou, assim, uma nova cultura no trabalho, que demanda mais investimento emocional das pessoas e que contribui para o muito bem conhecido nível de ansiedade, tristeza e venda de antidepressivos neste começo de século. E é aí, através dessa infelicidade hiperconsumista, que Gilles faz sua mais contundente análise. A da relação entre felicidade e nossos hábitos. Entre a obsessão em produzir sensações constantes de bem-estar e boa autoestima com nosso estranho fracasso em obtê-los mesmo em um mundo em franco progresso.

Brasil, um laboratório exemplar

“Trocamos o status pelo consumo como uma experiência emocional. E não acho isso necessariamente ruim. O problema é que o consumo e o mercado se tornaram objetivos em si. E não existe felicidade dentro de um paradigma egoísta, individualista e fora das relações humanas”, vaticina diante da heterogênea plateia. Esportistas de ponta como o big rider Carlos Burle e o snowboarder Felipe Mota, empresários como Álvaro Coelho da Fonseca, João Paulo e Pedro Paulo Diniz, artistas como Fernanda Lima, publicitários como Marcelo Serpa, João Farkas e Fran Abreu, são apenas alguns nomes que lotaram o espaço Manioca. Ouvidos diversos e atentos às palavras do professor: “Vivemos em uma sociedade paradoxal, que não se equilibra facilmente entre o materialismo e a espiritualidade. Entre a ideia bem difundida de que a felicidade é uma conquista interna e a projeção de nossos desejos em objetos e marcas.”

E se é o paradoxo que melhor define os tempos hipermodernos, para Gilles o Brasil é um laboratório exemplar para suas teses. “A enorme distância entre as classes e uma cultura que congrega tantos elementos consumistas e espirituais, que se inseriu de modo muito acelerado na sociedade de consumo, faz do Brasil um lugar muito significativo, onde a análise que proponho está clara”, ele diz em resposta a uma pergunta da plateia no fim de sua exposição. E conclui sua complexa coleção de argumentos com uma posologia mezzo filosófica, mezzo espiritual. “Precisamos criar novas paixões para conter a paixão consumista. Oferecer objetivos para mobilizar emoções além do consumo. O mercado não é ruim. Mas o culto do mercado apenas é o demônio”, pregou o papa da hipermodernidade.
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Participe! Neste sábado acontece o 25º Dia Mundial de Limpeza Costeira

24/09/2010 - Jaymi Heimbuch / Treehugger

Este sábado, 25 de setembro marca o "25th International Coastal Clean-Up Day".

Ao longo desses 25 anos,
os esforços tem feito milagres com o lixo marinho - no ano passado quase meio milhão de voluntários em 108 países coletaram 3.175 toneladas de detritos marinhos. E mesmo com essa enorme quantidade de lixo retirado de ambientes marinhos, ainda há muito mais flutuando por aí. De fato, o relatório de 2010 da Ocean Conservancy, organização sem fins lucrativos que organiza e sedia o evento anual, mostra estatísticas chocantes sobre o que foi coletado no ano passado, e o que ainda está lá fora, pondo em perigo a vida selvagem. Confira alguns dos números incríveis.


Segundo o relatório da Ocean Conservancy, "Os quase 200.000 itens computados durante o Dia Mundial de Limpeza Costeira 2009, representam uma ameaça direta à saúde pública. Resíduos como aparelhos eletrônicos, baterias, peças de carro, e embalagens com produtos químicos, podem liberar compostos tóxicos na água, enquanto resíduos de higiene pessoal e medicinais (preservativos, fraldas descartáveis, seringas, compressas) pode transmitir bactérias e outros contaminantes. Os voluntários encontraram em todo o mundo 15.076 seringas durante a limpeza de 2009."

Mas os itens que ameaçam os seres humanos parecem ridículos quando comparados com o que fazem à vida selvagem. Nós vimos algumas imagens do fotógrafo Chris Jordan mostrando como o lixo marinho pode ser letal para as aves, e os voluntários do Dia Mundial de Limpeza Costeira também testemunharam esses problemas. Durante o ano passado, encontraram 336 pássaros e animais emaranhados - 120 vivos e 216 já mortos. E isso é apenas o que foi encontrado - a grande maioria morre fora do alcance dos nossos olhos e lentes.

"O lixo marinho é sintomático de um mal-estar geral: é notório o desperdício e a persistente má gestão dos recursos naturais. Os sacos plásticos, garrafas e outros detritos que se acumulam nos oceanos e mares poderiam ser drasticamente reduzidos com a diminuição dos resíduos, iniciativas de logística reversa e recuperação ambiental dos ambientes impactados", diz Achim Steiner, diretora executiva do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas.

Nós nos tornamos muito acostumados com a idéia de "descartáveis", mas a verdade é que não existe tal coisa como "ausente", que você possa se livrar. Tudo acaba em algum lugar. E esperamos que neste sábado, muito do que tem sido descartado de maneira irresponsável seja recolhido por voluntários.

Cadastre-se para ser um desses voluntários de campo neste sábado, 25 de setembro!

Voluntários posam para foto com uma grande rede de pesca abandonada coletada no estuário de Santos
© Instituto EcoFaxina
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Educação para a conscientização e a mudança

21/09/2010 - Danielle Sibonis / EcoAgência

A justiça é defendida, tradicionalmente, como o respeito entre iguais, mas na prática, ela acontece apenas entre os seres humanos. “Especismo como tema transversal” foi o tema do professor de filosofia de escolas estaduais de São Paulo e membro fundador da Sociedade Vegana, Leon Denis.

Numa sociedade em que os animais têm valores relativos, sendo eles, meios para o fim econômico humano, o professor falou sobre a sua tentativa de apresentar aos seus alunos conteúdos que busquem sua autonomia moral. “Alguns alunos se interessam e levam um choque ao perceber algo tão evidente quanto a exploração animal e começam a mudar, e têm os alunos que se afastam porque mexe com o dia a dia dele, porque tudo que ele consome envolve os animais e o meio ambiente”.

“O diferente é você mostrar que o meio ambiente não é simplesmente um recurso para os seres humanos, e que os animais não são produtos. Cada organismo vivo tem valor inerente e busca manter sua vida”. Para Leon, é compreensível a dificuldade que algumas pessoas têm para aprender, por estar num mundo em que todo tipo de exploração é naturalizado. Os animais e o meio ambiente são tidos como recursos, coisas, então, passa por natural a exploração, não se questiona nada.

O professor defende a necessidade de se repensar conceitos como justiça e igualdade, para buscar desenvolver uma justiça ampla e não apenas para o homem. Para a sociedade realmente ser justa deve englobar os outros seres, senão os humanos se reduzem ao egoísmo, aniquilando a vida das outras espécies.

Ele destaca que é necessária a (in) formação para respeitar os não-iguais e não agir em interesse pessoal apenas. Para preparar seus alunos para a cidadania, Leon Denis defende a necessidade de mostrar as contradições de nossa sociedade, preparar para ser mais crítico, questionando a si mesmo, a escola, a sociedade, o professor que está falando com ele. ‘‘Para preparar para a autonomia tem se repensar a sociedade e não repetir frases que se repetem a séculos. Não podemos seguir com a reprodução de modelos éticos discriminatórios”.
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Baixada Fluminense ganha ecobarreira para evitar despejo de lixo na Baía de Guanabara

17/09/2010 - Agência Brasil

A Baixada Fluminense, na região metropolitana do Rio de Janeiro, ganhou mais uma ecobarreira para evitar que toneladas de lixo cheguem até a Baía de Guanabara. Feita com garrafas PET e com 48 metros de extensão, a ecobarreira, a décima em todo o estado, foi inaugurada hoje (17) no Rio Botas, em Belford Roxo. A iniciativa é da Secretaria Estadual do Ambiente em parceria com empresas privadas.

Segundo a secretária estadual do Ambiente, Marilene Ramos, a estimativa é reter 30 toneladas de lixo flutuante no rio por mês, evitando que esses detritos cheguem até a Baía de Guanabara. Ela informou ainda que parte do lixo será recolhida por catadores da região.

Ecobarreira de garrafas PET utilizada no Rio de Janeiro

“Além do ganho direto de reter o lixo, ele vai ser coletado por 67 ecogaris, que são os catadores do material reciclável. O lixo comum será recolhido pela prefeitura e o reciclável será vendido, gerando renda para esses catadores”, disse Marilene Ramos. Ela ressaltou que todo o detrito recolhido servirá de alerta para que a população pare de jogar o lixo nos rios.

A construção da ecobarreira do Rio Botas foi patrocinada por uma empresa de refrigerantes e custou cerca de R$ 65 mil.

Apenas no primeiro semestre desse ano, as nove ecobarreiras em funcionamento retiraram 4,8 mil toneladas de lixo dos rios, sendo 67 toneladas de material reciclável. As barreiras ecológicas estão instaladas nos canais de Sernambetiba, Marapendi, Arroio Fundo, Itanhangá, do Cunha e do Mangue, e também nos rios Irajá, dos Cachorros e Meriti, na Baixada Fluminense.
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Desenvolvimentismo ganha do meio ambiente nas eleições brasileiras

17/09/2010 - Leonel Plügel / IPS

Faltam poucos dias para as eleições no Brasil, mas já existe um ganhador: o desenvolvimentismo dos dois principais candidatos, que deixou de lado na campanha os cruciais temas ambientais, embora pela primeira vez a terceira nas pesquisas seja a candidata do Partido Verde (PV).

Nos primeiros debates na televisão, os temas ecológicos foram marginalizados do discurso de Dilma Rousseff, candidata do Partido dos Trabalhadores (PT), com 53% das intenções de voto, e de seu principal adversário, José Serra, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), com 23%.

Pouco pode fazer a respeito a candidata Marina Silva, do PV, que fez do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável os eixos de sua proposta. A ex-ministra do Meio Ambiente (2003-2009) conseguiu arranhar os 9% das intenções de voto em um panorama eleitoral muito polarizado.

A campanha eleitoral entrou na reta final para as eleições do dia 3 de outubro e, se Dilma, a previsível ganhadora, não obtiver metade mais um dos votos, haverá segundo turno, no dia 31 de outubro, entre os dois mais votados. “Dilma e Serra provêm do desenvolvimentismo e industrialismo, por isso os assuntos ambientais não aparecem em suas primeiras linhas de discurso”, explicou à IPS Claudio Roberto Gurgel, especialista político, economista e professor de administração na Universidade Federal Fluminense.

William Gonçalves, catedrático de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, afirmou que o desenvolvimentismo de Serra “é de cunho privatizante e liberal”, enquanto o de Dilma e “claramente estatista”. Claudio Roberto destacou que a candidata do PT, primeiro como ministra de Energia e depois como chefe da Casa Civil do governo de Lula, “foi uma das principais incentivadoras do investimento em infraestrutura”.

“Dilma é a principal artífice do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que prioriza os investimentos em habitação, transporte, energia e recursos hídricos”, destacou o especialista. O presidente Lula lançou, em 2007, o conjunto de políticas do plano quadrienal, ao qual foram destinados este ano US$ 284 bilhões. Agora, a aposta foi redobrada com a iniciativa de lançar um PAC2, ao qual seriam destinados US$ 564 bilhões.

Para Aspásia Camargo, candidata a deputada estadual pelo PV no Estado do Rio de Janeiro, Marina Silva “não conseguiu” impor o debate sobre a questão ambiental porque “Serra e Dilma se negam a discutir sobre isso”. Aspásia disse à IPS que os meios de comunicação são cúmplices desse “pacto de silêncio” dos candidatos do PT e do PSDB sobre meio ambiente, e recordou que nos debates “não foram feitas perguntas” sobre o assunto.

“A tradição política no Brasil é criticar o desmatamento e os problemas de contaminação depois que os eleitos assumem, e não discuti-los durante a campanha”, explicou. “Dilma e Serra têm uma visão industrializadora dos anos 1950”, disse Aspásia, e por isso “veem como um progresso investir em usinas nucleares e hidrelétricas, em lugar de energias limpas”.

Para Claudio Roberto, a candidata verde não conseguiu maior apoio porque “não encontrou o tom de campanha. Marina Silva não parece uma candidata ideologicamente definida, não se sabe se é oficialista ou de oposição”, afirmou. Claudio Roberto também destacou que se tivesse assumido um papel claramente de oposição, teria batido de frente com Lula, cuja imagem pessoal e de governante é positiva para 80% dos 190 milhões de brasileiros.

Além disso, acrescentou, Marina Silva não esquece que foi por cinco anos ministra de Lula, embora tenha deixado o governo por suas abertas desavenças sobre o adiamento de projetos ambientais. William coincidiu em catalogar a candidatura do PV como “sem definição”. Marina Silva “atende a um setor do eleitorado que se comporta como grupo de pressão, e qualquer um que defende o meio ambiente terá seu apoio e o de seu partido”, acrescentou.

Adriana Ramos, secretária-executiva do independente Instituto Socioambiental (ISA), destacou que os programas e as ofertas do PT e do PSDB carecem de diferenças “do ponto de vista ambiental”. Considerou que a candidatura verde “trouxe, de alguma forma”, o assunto ambiental ao debate eleitoral sobre políticas públicas. Mas, como Aspásia, criticou o fato de “a imprensa, na hora de debater plataformas políticas, deixar o assunto de lado”.

Adriana reconhece como “positivo” o compromisso do governo de “reduzir a emissão de gases-estufa”, anunciado antes da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, realizada em dezembro de 2009, na cidade de Copenhague. Porém, criticou como “um retrocesso” negativo o projeto de flexibilização do Código Florestal em debate no Congresso, onde a bancada ruralista, que representa os grandes interesses agrícolas e pecuários, pressiona para reduzir as exigências de preservação ambiental a favor do agronegócio”. Justamente, este setor é o que maior crescimento experimentou no Brasil durante o primeiro semestre do ano.

Números do estatal Instituto Nacional de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o agronegócio representou US$ 30 bilhões do total do produto interno bruto no período janeiro-julho, que totalizou US$ 508 bilhões. O Brasil é o maior exportador de carne do mundo e um dos maiores exportadores de grãos. Essa expansão da agroeconomia se baseia em monoculturas intensivas e pecuária de grande escala.

Este modelo “é um sinal de como os governos do PSDB e do PT” veem o desenvolvimento do campo, em detrimento da “agricultura sustentável” e do cuidado ambiental, alertou Aspásia. “Nossa candidata é a única que aposta em investir forte nos biocombustíveis, como a celulose de cana-de-açúcar, e de fazer isso de maneira sustentável”, afirmou a dirigente regional do PV.

Entretanto, Claudio Roberto disse que Marina Silva “não assume uma posição clara” sobre este ponto, pois para produzir biocombustíveis “necessitará do agronegócio atual” e essa vinculação “pode lhe custar votos” entre a base ambientalista.
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Bertioga: processo de criação de unidade de conservação caminha para audiência pública

16/09/2010 - WWF / Nathália Clark

Reunião na Prefeitura Municipal definiu diretrizes para continuação do processo de criação de unidade de conservação de proteção integral na restinga de Bertioga.

Vista aérea do Rio Guaratuba no município de Bertioga
© Adriana Mattoso

Enquanto a área prevista para criação de unidade de conservação no município de Bertioga permanece sob decreto de limitação administrativa provisória – ou seja, congelada –, o processo continua correndo. Está prevista para 7 de outubro, às 18h, no auditório da Prefeitura Municipal de Bertioga, a audiência pública oficial para apresentar e discutir as propostas de criação do “Parque Estadual Restinga de Bertioga”, que ficará sob responsabilidade da Fundação Florestal.

Em maio foi realizada a quinta reunião pública na Prefeitura, com participação da Fundação Florestal (FF), de funcionários da Prefeitura, vereadores e da comunidade em geral, quando foram definidos os passos até a definição final sobre a área. Pesquisadores, universidades e conselhos ainda estão apresentando suas propostas e as justificativas estão em fase de avaliação.

De acordo com Luciana Simões, coordenadora do Programa Mata Atlântica do WWF-Brasil, “antes do decreto final, este é a fase de ajustes e checagem de todos os processos, em termos de indenizações, pendências jurídicas com o Ministério Público, etc”.

A proposta principal que está sendo discutida nas consultas públicas é a criação do Parque Estadual, uma Unidade de Proteção Integral (veja tabela de unidades de conservação), com 80,25 km2. Quanto às áreas nos arredores da unidade, o objetivo é que se consiga um mosaico de proteção no polígono, composto por outras áreas de conservação. Para isso, há duas propostas de criação de RPPNs: uma se chamaria Hercules Florence, com 948 hectares; e a outra Costa Blanca, com cerca de 0,6 hectare.

Mapa informativo sobre a restinga de Bertioga. Clique para ampliar.
© Fundação Florestal

Diretrizes pós-audiência pública


Segundo o diretor executivo da Fundação Florestal da Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Wagner Netto, na audiência pública serão apresentadas as propostas da Prefeitura e do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Condema), das ONGs, pesquisadores e outros interessados. Em seguida, a Fundação Florestal irá expor sua proposta e após a audiência poderá haver modificação do polígono originalmente sugerido. Definido o desenho final, será encaminhado como Decreto para assinatura do Governador e do Secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Pedro Ubiratan.

Netto explicou que o primeiro passo para consolidação da área protegida é a criação da unidade por Decreto. “Imediatamente após o Decreto iniciaremos a sua proteção e daremos curso às ações para sua implementação, como: definição do gestor responsável, instalação de uma sede, criação do Conselho Consultivo, estabelecimento de parcerias para os programas de ecoturismo, educação ambiental, interação socioambiental, regularização fundiária e elaboração do Plano de Manejo”, afirmou.

Para Netto, o objetivo das consultas públicas é reunir o maior número possível de setores interessados na questão e abrir um processo de diálogo, de entendimento e de negociação, bem como analisar os estudos complementares que precisam ser feitos, com tempo confortável para concluir o processo. Ao final do qual, haverá uma audiência pública oficial, prevista para 7 de outubro, “que talvez seja o fórum mais importante para coletar informações sobre o projeto”, opinou.

Netto afirmou também que “a idéia é fazer a audiência pública em outubro, para dispor de um mês para os arremates finais, pois a intenção é encaminhar durante o mês de novembro o decreto para assinatura do governador”. Essa afirmativa foi ratificada também pelo secretário de Meio Ambiente.

O processo de criação de uma unidade de conservação envolve várias etapas. Da reunião na Prefeitura, em maio, resultaram os seguintes encaminhamentos: realização de novas reuniões para formação e planejamento do trabalho; reunião com a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) para discutir como conduzir a questão da pressão habitacional e discussão sobre uma política habitacional, o que já existe de recurso e possibilidade imediata; reunião na Procuradoria Geral do Estado (PGE), para entender juridicamente a questão da compensação ou não do IPTU de propriedades na área; e discussão com a Secretaria do Meio Ambiente sobre a compensação de áreas urbanas.

Concretização de um desejo antigo

De acordo com Wagner Netto, a ideia de proteção integral da restinga de Bertioga vem sendo desenvolvida pela Secretaria de Meio Ambiente desde 1994, quando foi encaminhada a primeira proposta. “As indicações do Projeto Biota, do Plano de Manejo do Parque Estadual Serra do Mar e a parceria com o WWF-Brasil vieram a consolidar esta vontade, pois todos os estudos realizados, bem como o próprio tombamento da Serra do Mar, em 1986, convergem para o reconhecimento da importância da paisagem, da biodiversidade e das fisionomias vegetais únicas que ali ocorrem, além dos 7km de praias e costões rochosos”, relatou.

Mapa da cobertura vegetal no município de Bertioga. Clique para ampliar.
© Fundação Florestal

Uma vez criado o Parque, a ideia principal é continuar o incentivo à manutenção do ecossistema e a conscientização da população do entorno, através de parceria com a Prefeitura e outras instituições interessadas. Além disso, o diretor destaca como ações primordiais num primeiro momento o fortalecimento da gestão compartilhada com o Conselho Consultivo, a criação de roteiros de visitação e educação ambiental, e produção de material de comunicação para os visitantes. “A proteção por meio da Policia Militar Ambiental e nossos vigilantes/guardas do parque também será imediata”, completou.


Quanto à compensação dos indivíduos afetados pelo congelamento da área, o diretor afirmou que “será dada continuidade à regularização fundiária, indenizando legítimos proprietários por meio de ações já existentes e outras a serem iniciadas”.

Netto declarou também que pretende dar mais publicidade à proposta quando finalizada, cerca de 20 dias antes, com intuito de envolver de maneira mais significativa a população. Em 6 de setembro deverá ser publicada no Diário Oficial do Estado e, em 7 de outubro, a audiência pública oficial.
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O calor mata corais caribenhos

15/09/2010 - Stephen Leahy / IPS

A parte branca é o esqueleto calcário já sem vida

O Mar do Caribe Sul pode estar sofrendo o início de uma maciça mortandade de corais, afirmam cientistas.

UXBRIDGE, Canadá, 13 de setembro (Tierramérica).- As águas do Mar do Caribe estão mais quentes do que nunca, e os corais da região estão ficando brancos e começam a morrer, alertam especialistas. O fenômeno pode ser observado sobretudo nas Antilhas Menores, no Caribe Sul, disse Mark Eakin, coordenador do programa Coral Reef Watch, da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).

A temperatura está mais elevada do que em 2005, quando um grave caso de embranquecimento afetou boa parte do Caribe. Quase 60% dos corais morreram nessa oportunidade nas norte-americanas Ilhas Virgens, disse Mark ao Terramérica. Nessa região, a temperatura da água atinge seu ponto máximo entre setembro e outubro.

É provável que a área afetada pelo embranquecimento de corais aumente para Leste e chegue até a Nicarágua, passando pela Ilha La Española, onde ficam Haiti e República Dominicana, até Porto Rico e Antilhas Menores, e para o Sul ao longo das costas caribenhas do Panamá e da América do Sul, alertou no mês passado a Coral Reef Watch.

“Isto pode ser pior do que em 2005, a menos que algumas tempestades tropicais misturem as águas quentes da superfície com as mais profundas e frias”, ressaltou Mark. Os arrecifes coralinos são encontrados em menos de 1% dos oceanos do mundo, mas abrigam entre 25% e 30% de todas as espécies marinhas. Aproximadamente um bilhão de pessoas depende direta e indiretamente deles para subsistir.

É um dos ecossistemas essenciais para a sobrevivência humana, diz a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Um pedaço colorido de coral é uma colônia de milhares de diminutos animais, os pólipos, que produzem em torno deles esqueletos de pedra calcária em forma de taça, utilizando o cálcio da água marinha.

Geração após geração de pólipos que vivem, constroem e morrem vão formando os arrecifes, um hábitat para esta e muitas outras espécies de flora e fauna. As cores dos corais são proporcionadas pelas algas zooxanthellae, que cobrem os pólipos, fornecem a eles alimentos – açúcares e aminoácidos – e em troca obtêm um lugar seguro para viver com luz suficiente para sua fotossíntese.

Esta perfeita relação simbiótica, que funciona há 250 milhões de anos, se quebra quando a água esquenta muito ou é contaminada. As algas morrem, o que pode ser visto pelo esbranquiçamento, e os pólipos ficam sem alimento e se tornam muito vulneráveis às enfermidades. Antes da década de 1980, foi registrado um único grande episódio de esbranquiçamento. A elevação de um ou dois graus da temperatura máxima de verão basta para disparar o processo.

Quanto mais tempo durar essa temperatura, maior é a descoloração. Os corais podem se recuperar se a situação se prolongar algumas semanas. O aquecimento da atmosfera, derivado da emissão de gases-estufa liberados pela queima de combustíveis fósseis, está aquecendo gradualmente os oceanos. Em julho, a temperatura das superfícies marinhas registrou pico de 62 décimos de grau acima da média do Século 20, segundo a NOAA.

No sudeste da Ásia, os oceanos esquentaram quatro graus acima do normal, em maio. Embranqueceram entre 60% e 80% dos corais de várias áreas próximas de Indonésia, Vietnã, Sri Lanka, Tailândia e Malásia, e alguns morreram, segundo estudos do Programa da Indonésia da Wildlife Conservation Society.

Acredita-se que desta vez o esbranquiçamento será pior do que em 1998, quando acabou com 30% dos corais dos oceanos Índico e Pacífico ocidental e central, afirmou esta organização. Naquele ano, 16% dos corais do mundo morreram. Até a década passada, a sobrepesca, a contaminação e o desenvolvimento econômico costeiro eram as principais causas das mortes dos corais. Estas ameaças persistem, apesar da criação de áreas marinhas protegidas e de reservas onde a pesca é proibida.

Apesar das boas intenções, estes esforços não são efetivos, disse ao Terramérica o ecologista marinho Peter Sale, do Instituto para a Água, o Meio Ambiente e a Saúde da Universidade das Nações Unidas. “A maioria das áreas marinhas protegidas não funciona. As chamamos de parques de papel”, acrescentou. Apresentam problemas de administração e de projeto e não consideram a realidade de que os arrecifes não podem existir em isolamento.

Se o desenvolvimento costeiro gera contaminantes ou sedimentos que fluem para o oceano, os arrecifes próximos estarão acabados, porque se encontram em uma área marinha protegida, disse Peter. Também há uma assombrosa escassez de dados científicos. “Não sabemos como deveria ser cada uma dessas áreas para apresentar resultado efetivo”, afirmou.

No Caribe, a pesca mais abundante é a da lagosta. “Mas nenhum dos países da área sabe de onde procedem as suas. Assim, como manejar adequadamente esse recurso?”, questionou. Após a desova, as larvas da lagosta flutuam livremente cerca de nove meses no mar, viajando centenas de quilômetros de distância do lugar de nascimento, segundo novas pesquisas.

Estas descobertas fazem parte de um projeto que elaborou o guia “Preserving reef connectivity: a handbook for marine protected area managers” (Preservando a conectividade dos arrecifes: manual para administradores de áreas marinhas protegidas), informou Peter. A proteção local e o manejo dos corais são essenciais para que resistam aos efeitos da mudança climática: o esbranquiçamento e a acidificação das águas, que enfraquece o esqueleto calcário do arrecife, enfatizou.

No começo dos anos 1980, os habitantes de duas pequenas ilhas das Filipinas recuperaram seus corais e sua pesca, que estavam à beira da extinção. Conseguiram isso criando zonas de proibição para pesca e manejando-as de maneira adequada. Hoje capturam mais peixes com menos esforço e geram boa renda com o turismo, disse Peter. É necessário que as áreas marinhas protegidas do Caribe sejam manejadas em uma rede regional vinculada à costa continental, acrescentou. “Se for bem feito, serão beneficiados corais, pesca e o entorno costeiro”, concluiu.
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Relatório estima que cidades já consomem 70% dos recursos naturais do planeta

12/09/2010 - Paulenir Constâncio / MMA

Relatório inédito do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente apresentado em Curitiba, quinta-feira (9/9), revela que serviços ambientais podem economizar tempo e dinheiro para as economia dos estados e municípios.

Dados da Organização das Nações Unidas constatam que mais da metade da população mundial está nas cidades e já é responsável pelo consumo de 70% de todos os recursos que o homem retira da natureza. Até 2050, com a estimativa de que a população do planeta supere 9,2 bilhões, a Terra terá 6 bilhões de habitantes, quase 90% da população atual, vivendo no espaço urbano. Diante desses números, governos estaduais, prefeituras e comunidades precisam reconhecer o valor do capital natural (água, solo, biodiversidade). Os formuladores de políticas públicas têm razões de sobra para tentar encontrar, o mais rápido possível, soluções de combate à degradação dos ecossistemas e minimização da perda da biodiversidade.

O alerta está no relatório A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade para Políticas Locais e Regionais (TEEB, sigla em inglês) , lançado simultaneamente no Brasil, em workshop realizado nesta quinta-feira (09/09) em Curitiba (PR), na Bélgica, Índia, Japão e na África do Sul. Nele, 140 especialistas das áreas de ciência, economia e política de mais de 40 países concluíram que os serviços ambientais podem impulsionar as economias locais, gerar milhões de novos empregos e melhorar a qualidade de vida nas cidades.

Segundo o diretor do Departamento de Biodiversidade do MMA, Bráulio Dias, que representou a ministra Izabella Teixeira no encontro, o relatório é importante para que os gestores públicos reconheçam o valor econômico da biodiversidade . Par ele, o documento pode ajudar na solução do impasse entre preservação ambiental e desenvolvimento econômico. Mostra (o TEEB) que os serviços ambientais têm o papel de reduzir os impactos ecológicos do desenvolvimento .

O documento reconhece e recorre a dados e exemplos para demonstrar que ecologia e economia não só podem, como devem, caminhar juntas nas políticas públicas. O relatório levanta, principalmente, a questão de valoração e impacto do uso e preservação dos recursos naturais. Os atuais níveis da pegada ecológica e social, nome que os especialistas dão aos recursos naturais necessários para que cada ser humano viva, devem ser incluídos nas contas de planejamento das economias locais. Bráulio cita como exemplos recentes enchentes e desmoronamentos no Brasil com prejuízos econômicos elevados, e bem superiores ao que seria gasto com medidas de preservação do meio ambiente.

O relatório chama a atenção em três aspectos para as quais as políticas públicas precisam estar voltada: a distribuição dos benefícios da natureza, o uso do conhecimento científico disponível e o engajamento dos gestores e das comunidades envolvidas nas ações de preservação. O relatório estuda, ainda, áreas protegidas e o aumento dos benefícios locais da conservação, e dá orientações sobre os incentivos de recompensa da boa administração de capital natural local, tais como sistemas de pagamento localmente adaptados por serviços ambientais, certificação e rotulagem.

Esse é o primeiro de uma série de cinco relatórios, que serão levados à Convenção da Biodiversidade (COP-10) em Nagoya, no Japão. Ele contribui também para o Atlas Ambiental online da Agência Europeia de Meio Ambiente, com estudos de vários esforços que já vêm sendo feitos para associar ecossistemas e a biodiversidade nas iniciativas de políticas locais. Segundo Achim Steiner, diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, um dos organismos que realizam o workshop, alguns governos locais já acordaram para o problema da preservação ambiental e têm adotado as medidas necessárias, com ganhos para suas economias locais. Mas muitos ainda precisam aderir , acredita.
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Sacolas plásticas ou de papel, do ponto de vista energético, qual é melhor?

11/09/2010 - Por William Rodriguez Schepis

É um pensamento antigo, quando chega a hora de fazer compras no supermercado: qual seria a melhor opção, sacolas de papel ou plásticas? Parece ser uma escolha fácil, mas há um número incrível de detalhes escondidos em cada tipo de sacola. De durabilidade e reusabilidade, a custos por ciclo de vida, há muito mais em cada sacola do que podemos enxergar. Vamos dar uma olhada por trás das sacolas...


De onde vem as sacolas de papel marrom?


O papel vem das árvores - muitas e muitas árvores. A indústria madeireira, influenciada por empresas como a Weyerhaeuser e a Kimberly-Clark, é enorme, e o processo para obter essa sacola de papel para o comércio é longo, sórdido e cobra um pesado tributo sobre o planeta. Primeiro, as árvores são encontradas, marcadas e abatidas em um processo que muitas vezes envolve corte raso, resultando em destruição maciça de habitat e a longo prazo, dano ecológico.

Mega-máquinas vem para remover as toras que costumavam ser floresta, seja por caminhões madeireiros ou até mesmo helicópteros, em áreas mais remotas. Estas máquinas requererm combustíveis fósseis para operar e, quando feito de forma insustentável, derrubar até mesmo uma pequena área tem um grande impacto em toda a cadeia ecológica nas áreas circunvizinhas.

Quando as árvores são cortadas, elas devem secar, pelo menos, três anos antes de poderem ser utilizadas. Mais máquinas são usadas para tirar a casca, que é reduzida em quadrados de uma polegada e cozidos sob forte pressão e calor. Essa madeira cozida é, então, "digerida", por uma mistura química de calcário e ácido e, após várias horas de mais cozimento, o que antes era madeira torna-se celulose. São cerca de três toneladas de aparas de madeira para fazer uma tonelada de celulose.

A polpa é lavada e branqueada, ambas as fases exigem milhares de litros de água limpa. Para a coloração é adicionada mais água, em uma proporção de uma parte da polpa para 400 partes de água. A mistura polpa e água é despejada em uma teia de fios de bronze, onde a água passa, deixando a polpa, que por sua vez, é enrolada como papel.

Ufa! E isso é só para fazer o papel, não se esqueça sobre as entradas de energia - química, elétrica e baseada nos combustíveis fósseis - utilizadas para o transporte da matéria-prima, transformação do papel em uma sacola e, em seguida, transportar a sacola de papel pronta para o comércio.

Para onde as sacolas de papel vão ao final da vida útil?

Quando você termina de usar uma sacola de papel, um série de coisas podem acontecer. Se for minimamente impressa (ou impressa com tintas à base de soja ou outros corantes vegetais) ela pode ser compostada, caso contrário, pode ser reciclada na maioria dos sistemas de reciclagem de papel misto, ou pode ser jogada fora (que não é algo que recomendamos).

Se você utilizar a compostagem, as sacolas serão degradadas e transformadas em um composto orgânico rico em nutrientes no período de dois meses. Se você jogá-las fora, elas demorarão muito mais tempo para serem degradadas (e sem os benefícios finais do adubo). Se você optar por reciclar as sacolas de papel, então as coisas ficam um pouco complicadas.

O papel deve ser primeiramente repolpado, o que geralmente exige um processo químico que envolve compostos como o peróxido de hidrogênio, silicato de sódio e hidróxido de sódio, que clareiam e separam as fibras de celulose. As fibras são, então, limpas e selecionadas para ter a certeza que elas estão livres de qualquer coisa que possa contaminar o processo de fabricação do papel, depois são lavadas para remover restos de tinta, antes de serem pressionadas e enroladas em formato de papel, como antes.

Como são feitas as sacolas plásticas?


Ao contrário das sacolas de papel, sacolas plásticas são normalmente feitas de petróleo, um recurso não renovável. Os plásticos são um subproduto do processo de refino de petróleo, e respondem por cerca de 4% da produção de petróleo ao redor do planeta.

É com a eletricidade o maior gasto de energia durante o processo de criação da sacola plástica que, no Brasil, vem na sua maioria de usinas hidrelétricas. O processo requer bastante eletricidade para aquecer o óleo até 400ºC, permitindo a separação de seus diversos componentes e moldagem em polímeros. As sacolas plásticas vem na maioria das vezes de um dos cinco tipos de polímeros, o polietileno, na sua forma de baixa densidade (LDPE).

Como funciona a reciclagem da sacola plástica?

Assim como o papel, o plástico pode ser reciclado, mas não é simples ou fácil. A reciclagem envolve, essencialmente, refusão das sacolas e remoldagem do plástico, no entanto, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA, na fabricação de objetos plásticos a partir de plástico reciclado são necessários 2/3 da energia usada na fabricação de plástico virgem. Mas, como qualquer barista que já tentou reaquecer um café, irá dizer-lhe que nunca terá a mesma qualidade! As cadeias poliméricas quebram frequentemente, levando a um produto de qualidade inferior.

O que isso significa para você? Basicamente, o plástico é muitas vezes downcycled - isto é, o material perde a viabilidade e/ou valor no processo de reciclagem - em formas menos funcionais, tornando-se difícil fazer sacolas plásticas novas através das velhas.

E sobre as sacolas plásticas biodegradáveis?

As sacolas biodegradáveis são feitas com Biopolímeros como polihidroxialcanoato (PHA) e poliláctico (PLA), são totalmente biodegradáveis em compostagem (e de muito, muito lenta degradação em aterro sanitário). Não possuem derivados de petróleo e sim de fontes de alimento.

A principal matéria-prima para o bioplástico hoje é o milho, que é repleto de conflitos agropolíticos e, muitas vezes cultivados e colhidos de forma insustentável, por essas razões, e porque compete com o fornecimento de alimentos, não é provável que seja uma solução a longo prazo no mundo do plástico.

Além disso, algumas sacolas indicadas com biodegradáveis na verdade não são - elas são de plástico reciclado misturado com amido de milho. O amido de milho é biodegradado e o plástico se decompõe em minúsculos pedaços, deixando uma bagunça de polímeros "sujos". A única maneira de evitar isso? Procure por polímeros 100% à base de plantas, como os dois acima mencionados.

Contudo, é bom ter a alternativa (e reconhecer a inovação que representa), mas os bioplásticos não estão completamente prontos para salvar-nos do debate entre o papel ou plástico.

Plástico ou papel: Um olhar para os fatos e números

Refletindo sobre as implicações do uso e reciclagem de cada tipo de sacola, pode ser adquirido um olhar olístico sobre a energia, emissões e outros custos de vida relacionados com o ciclo de produção e reciclagem. De acordo com análises do ciclo de vida, as sacolas plásticas criam menos emissões aéreas e requerem menos energia durante o ciclo de vida entre ambos os tipos de sacolas em 10.000 utilizações equivalentes.

Resíduos sólidos: de plástico gera 4,14 Kg³ contra 20,82 Kg³ de papel.
Emissões aéreas: de plástico gera 8,14 Kg contra 29,18 Kg de papel.
Efluentes: de plástico gera 0,82 Kg contra 14,18 Kg de papel.

Sacolas de papel podem carregar mais coisas. Dependendo de como são seladas, armazenam mais volume e se tornam mais resistentes. Os números indicam que cada sacola de papel carrega 50% mais do que cada sacola plástica, o que significa que leva uma sacola e meia de plástico para igualar uma sacola de papel - apesar disso a sacola plástica ainda sai na frente.

É importante notar que todos os números acima assumem que as sacolas não são recicladas, o que acrescentaria uma série de impactos negativos, tanto às de papel quanto às de plástico.

Curiosamente, os números para a reciclagem de sacolas de papel ficam melhores mais rápido - quanto mais são recicladas, menor se torna o impacto ambiental - mas, como as sacolas plásticas utilizam muito menos recursos para começarem a ser produzidas, elas ainda acabam criando menos resíduos sólidos, emissões atmosféricas e efluentes.

Energia consumida por sacolas plásticas e de papel

A partir da mesma análise, descobrimos que o plástico também tem menores exigências de energia - esses números são expressos em milhões de unidades térmicas britânicas (BTUs) por 10 mil sacos, em 1,5 sacolas plásticas para cada sacola de papel. As sacolas plásticas exigem 9,7 milhões BTUs, contra 16,3 das sacolas de papel com reciclagem de 0%, mesmo a 100% de taxa de reciclagem, as sacolas plásticas continuam a exigir menos - de 7,0 contra 9,1 do papel.

O que isso significa para mim e para você? As sacolas plásticas necessitam de menos energia para serem produzidas, o que é significativo, porque grande parte da nossa energia gera impactos ambientais.

A melhor opção? A sacola reutilizável mais conhecidas como ecobags. Criadas por Anya Hindmarch com a famosa frase "Eu não sou uma sacola plástica", estão ajudando a dar à sacola reutilizável algum sex apeal.

Sacolas plásticas ou de papel: a conclusão


Ambas exigem muitos recursos e energia, a reciclagem adequada requer logística reversa, integrando consumidores e produtores, passando pela coleta de resíduos urbanos e empresas de reciclagem, por isso, há uma série de variáveis que podem levar a baixas taxas de reciclagem.

Finalmente, nem papel nem plástico são boas escolhas. Sacolas de lona natural ou sintética, reutilizáveis, é o caminho a seguir. Do ponto de vista energético, de acordo com este estudo australiano, sacolas de lona são 14 vezes melhores que as sacolas plásticas e 39 vezes melhores que as sacolas de papel, pois as sacolas de lona podem transportar grande variedade de mercadorias e serem utilizadas mais de 500 vezes durante seu ciclo de vida.

Boas compras!
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Outra plataforma de petróleo explode no Golfo do México, 4 meses depois

03/09/2010 - Denise Chrispim Marin / O Estado de S.Paulo

Os 13 funcionários da empresa Mariner Energy foram resgatados; risco de desastre comparável ao da Deepwater Horizon é pequeno, afirma especialista, porque a Vermilion Block 380 não perfurava poço e opera a apenas 105 metros da superfície.


A plataforma de petróleo Vermilion Block 380, da companhia americana Mariner Energy, explodiu ontem no Golfo do México, a 160 quilômetros da costa da Louisiana, nos Estados Unidos. Os 13 funcionários da estrutura, que estava em manutenção, lançaram-se ao mar e foram resgatados pela Guarda Costeira. Apenas um deles teria se ferido.

A empresa informou que a explosão não causará um vazamento de petróleo similar ao da plataforma Deepwater Horizon, da British Petroleum (BP), responsável pelo maior acidente ambiental da história dos EUA.

Porém, a companhia se esquivou de mencionar se um volume menor está sendo derramado no golfo. Em texto ao público, a companhia diz ter notificado as autoridades regulatórias americanas, além de estar trabalhando com elas para dar uma resposta a esse incidente. "A causa não é conhecida e será conduzida uma investigação", continua o texto.

Do ponto de vista técnico, o risco menor de vazamento é factível. Conforme o especialista Andy Radford, a Vermilion operava em águas rasas, ao contrário da Deepwater Horizon, o que tornaria mais fácil estancar um possível vazamento.

A explosão da Vermilion se deu a 105 metros da superfície. Além disso, as duas estruturas são diferentes. A da BP era uma plataforma de perfuração de poço. A da Mariner é de produção, portanto o óleo escoa com pressão controlável. Curiosamente, as duas estruturas estão separadas por apenas 128 quilômetros.

Mesmo que não alcance a dimensão do caso da BP, o novo acidente poderá reforçar a decisão do presidente dos EUA, Barack Obama, de manter a moratória para a exploração de petróleo e gás no Golfo do México.

"Temos como reagir de imediato, caso venhamos a receber relatórios que confirmem a poluição das águas", antecipou-se o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs. O governo americano foi acusado pela oposição de demorar a reagir no caso da BP, que resultou na morte de 11 funcionários (mais informações nesta página).

O acidente na Vermilion mobilizou sete helicópteros da Guarda Costeira, duas aeronaves e três embarcações de três Estados da costa. Até a última semana de agosto, quando entrou em manutenção, a plataforma extraía uma média de 9,2 milhões de metros cúbicos de gás natural e de 1,4 mil barris de petróleo por dia, de acordo com a empresa.

A reação mais imediata ao acidente deu-se no mercado financeiro. Segundo a agência de notícias Reuters, o preço do barril de petróleo na Bolsa Mercantil de Nova York aumentou 0,81%, para US$ 74,50. As ações da Mariner Energy, companhia independente que participa de pelo menos 35 projetos de exploração em águas profundas no Golfo do México, caíram 2%. A companhia tem uma dívida de US$ 1,2 bilhão e está em processo de venda para a Apache Corporation, outra empresa americana e independente do setor.


PARA LEMBRAR

Em abril, explosão matou 11 funcionários

Em 20 de abril, a plataforma Deepwater Horizon, a cerca de 80 quilômetros da costa da Louisiana, no Golfo do México, explodiu, dando início ao que é considerado o maior desastre ambiental da história dos EUA. O presidente Barack Obama, que no início foi acusado de lentidão na reação à tragédia, chegou a classificá-la de o "11 de Setembro ambiental".

A explosão da plataforma causou a morte de 11 pessoas. Estima-se que 652 milhões de litros de óleo tenham atingido a costa de cinco Estados - Louisiana, Alabama, Mississippi, Texas e Flórida -, matado centenas de animais e impactado sobre os setores de hotelaria, alimentação e entretenimento. Só na Flórida a perda foi de 35 mil empregos e US$ 2 bilhões.

No segundo semestre, a BP teve prejuízo de US$ 17 bilhões, o maior de sua história.
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Prefeitura sanciona lei que obriga empresas a coletar lixo tecnológico

03/09/2010 - Prefeitura Municipal de Santos

Mais uma medida para a preservação do meio ambiente foi promulgada pela prefeitura por intermédio da Lei 2712, publicada na edição do Diário Oficial de Santos deste sábado (4), que obriga empresas a recolherem e darem destinação final ao lixo tecnológico.

Pela legislação, é considerado lixo tecnológico os componentes periféricos de computadores, inclusive monitores e televisores (que contenham tubos de raios catódicos), lâmpadas de mercúrio e peças de aparelhos eletroeletrônicos que reúnam metais pesados ou outras substâncias tóxicas.

A lei, que deverá ser regulamentada pelo Executivo, prevê que as empresas terão 30 dias para apresentar o projeto de coleta e destinação final ambientalmente adequada para os resíduos.

Estabelece ainda que, além de manter recipientes para coleta e destinação final, fabricantes e comerciantes desses produtos serão obrigados a advertir os consumidores nos rótulos para que não lancem o material inutilizado em lixo comum e fornecer endereços e telefones de contatos dos locais para descarte.

Os infratores estarão sujeitos à multa pecuniária, que será revertida para a coleta seletiva e destinação ambientalmente adequada. Ao sancionar a lei, o prefeito João Paulo Tavares Papa destacou que a legislação abrange toda a cadeia envolvida com lixo tecnológico, do fabricante ao consumidor. "Todos terão sua parcela de responsabilidade, enquanto ao poder público caberá o disciplinar todo o procedimento".
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Mais de 50 animais marinhos são encontrados mortos em Praia Grande

02/09/2010 - Suzana Fonseca / A Tribuna

Cinquenta e sete pinguins-de-magalhães, duas tartarugas-verdes e um bobo-pequeno (ave marinha semelhante à fragata) foram encontrados nesta quarta-feira (01/09), em Praia Grande. Todos estavam mortos. Desde julho, foram achados 348 animais marinhos nas areias das praias da Cidade – apenas 19 deles com vida.

Conforme a veterinária Andréa Maranhos, do Grupo de Resgate e Reabilitação de Animais Marinhos (Gremar), a necropsia dos animais retirados nesta quarta-feira da praia revelou que eles tinham parasitas e lixo no estômago.

Como os animais estavam em avançado estado de decomposição, a veterinária precisou fazer a análise com base no material que se encontrava em condições um pouco melhores.

Uma das hipóteses a serem consideradas está relacionada ao defeso da merluza na Argentina, de acordo com Andréa. Para auxiliar os pescadores, o país teria aumentado a cota de pesca da anchovita, um tipo de pescado bastante consumido pelos pinguins na costa argentina. “Pode ser que esteja faltando lá para eles”.

O resultado das análises do material retirado dos animais deverá ficar pronto até novembro. Por enquanto, não é possível afirmar quais seriam as causas das mortes. “Estamos mandando o material para exames laboratoriais. Existem vários fatores sendo levantados”, destacou a veterinária.

Alto mar

Antes mesmo dos animais chegarem às praias, o pescador Israel Augusto Elias viu dezenas deles no mar, entre segunda e terça-feira, a cerca de sete quilômetros da costa.

“Eles estavam em decomposição. Não sei dizer quantos eram. Mas eram bem mais do que apareceu na praia”, garantiu o pescador.

Segundo Elias, quatro pinguins vivos chegaram a se aproximar da embarcação. “Eles estavam com muita fome, atacando a rede. Demos peixes para eles e aí eles foram embora”

Animais encontrados mortos na Cidade desde julho:

Julho – 241 animais

– 14 tartarugas-verdes (1 viva)
– 3 tartarugas-cabeçudas
– 1 tartaruga-de-pente
– 2 toninhas
– 1 golfinho-pintado-do-Atlântico
– 2 golfinhos-de-dentes-rugosos
– 1 raia-prego
– 211 pinguins-de-magalhães (6 vivos)
– 1 gaivota (viva)
– 1 albatroz
– 1 atobá (vivo)
– 1 mergulhão
– 1 batuíra (viva)
– 1 fragata (viva)

Agosto – 47 animais

– 1 tartaruga-cabeçuda
– 9 tartarugas-verdes
– 33 pinguins-de-magalhães
– 1 golfinho-nariz-de-garrafa
– 2 gaivotas (1 viva)
– 1 atobá (vivo)

Setembro – 60 animais

– 57 pinguins
– 2 tartarugas-verdes
– 1 bobo-pequeno
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Sobrevivendo com bolacha de lama

01/09/2010 - Wadner Pierre/IPS

Porto Príncipe, Haiti, 31/8/2010, (IPS) - Às seis da manhã em Cité Soleil, o bairro mais pobre da capital do Haiti, o Sol já apareceu. É o começo de outro dia de trabalho para Lurene Jeanti, que prepara bolachas com manteiga, sal e lama.

Ela se dedicou, nos últimos oito anos, a preparar estes produtos para vender aos seus vizinhos. As bolachas de lama são consumidas especialmente pelas grávidas, já que são importante fonte de cálcio. “A lama me ajuda a manter meus filhos”, disse Lurene.

As bolachas de lama garantem a sobrevivência no Haiti

Esta mulher pequena, mas forte, é uma das milhares de haitianas que emigraram do campo para a capital na última década. Abandonou seu povoado para buscar uma maneira de manter seus cinco filhos. “Não têm pai. Sou a mãe e o pai para eles”, contou Lurene à IPS. O Haiti não conta com leis que protejam as mães solteiras. Lurene cresceu em Anse D’Hainault, localidade do sudoeste haitiano.

Ao contrário de outras áreas rurais, as árvores ainda povoam as montanhas do lugar, e nas pequenas mesetas ainda se planta batata doce e cacau. “Conhece Anse D’Hainault? É realmente bonito. Deveria ir. Costumava plantar. Sou uma agricultora”, disse Lurene. Porém, sua renda não era suficiente. O desemprego disparou em grande parte das zonas rurais haitianas.

Agora Lurene vive em Cité Saint Georges, pequeno distrito dentro de Cité Soleil. O canal de água que atravessa o bairro está cheio até o topo de garrafas plásticas. Ela senta em uma esquina suja perto da entrada de um estreito corredor onde as pessoas se aproximam para comprar as bolachas ou a água vendida por um vendedor ao seu lado. A maioria das casas está na metade da construção com blocos de concreto.

Durante seus primeiros dois anos em Porto Príncipe, Lurene tentou se arranjar com os produtos que levara de Anse D’Hainault, mas não conseguiu. Então, começou a cozinhar e vender as bolachas. A mina onde obtém o lodo fica no centro do país. Uma fabricante como Lurene deve comprar a terra de intermediários.

Lurene quer voltar a Anse D’Hainault para cuidar de sua mãe. “Quero voltar para minha casa. Minha mãe está envelhecendo. Tenho que voltar para cuidar dela. Sou sua única filha”, explicou. Contudo, ela está preocupada sobre como manterá toda sua família. “Não posso regressar com 2.500 gourdes. Não me servirão. E estou envelhecendo como minha mãe. Tenho 49 anos”, afirmou.

Lurene sabe que seu caso é semelhante ao de muitas mães solteiras haitianas. “Não sou a única que fábrica bolachas de lama para vender. Muitas fazem o mesmo que eu para manter seus filhos”, afirmou, enquanto apontava para um grupo de mulheres secando bolachas no teto de uma casa.

Laurene Jeanti reflete a situação de centenas de milhares de mulheres haitianas que abandonaram suas casas na esperança de uma vida melhor na capital. Entretanto, com os 1,5 milhão de desabrigados pelo terremoto de 12 de janeiro ainda vivendo em barracas de campanha, seu futuro é incerto. Doadores internacionais prometeram US$ 5,3 bilhões em ajuda para a reconstrução, mas menos de 20% dessa quantia foi entregue.
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Plástico forma ilhas de poluição nos oceanos

01/09/2010 - Cesar Baima / O Globo

Cachalote com saco plástico preso a sua nadadeira

RIO - Ele foi feito para durar e revolucionou a indústria no século XX. Resistente, versátil, prático e barato, o plástico em poucos anos mudou os padrões de consumo e comportamento da Humanidade, invadindo quase todos aspectos de nossas vidas, da alimentação à higiene, do transporte ao vestuário, do trabalho ao lazer. Mas esta revolução já começa a cobrar sua conta ambiental, menos de 100 anos da explosão de seu uso, no esforço de guerra dos anos 40.

A produção global de resinas plásticas cresceu de entre 1,5 milhão a 5 milhões de toneladas anuais na década de 50 para uma estimativa de mais 270 milhões de toneladas em 2010. Só no Brasil, a produção e consumo de resinas termoplásticas passou de 5 milhões de toneladas no ano passado, ou quase 28 quilos por habitante, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast). E, graças à sua durabilidade, quase todo plástico que foi produzido desde a criação da primeira resina, há mais de 140 anos, ainda está espalhado por aí, em aterros sanitários, nas margens de rios, nas praias e até no meio dos oceanos, a milhares de quilômetros de qualquer sinal de presença humana.

- A poluição por plásticos é um problema global. Não existem barreiras nem fronteiras para os plásticos. Resíduos já foram encontrados em ilhas remotas do Pacífico, na Antártica e em muitos outros lugares onde não existe ocupação humana - diz Juliana Assunção Ivar do Sul, doutoranda do Departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e coordenadora científica do projeto "Lixo marinho", que busca somar os esforços no estudo da questão no Brasil e concentrar os dados sobre ela.

Entre os poucos pesquisadores sobre o tema no país está o biólogo Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO/USP). Em recente levantamento, ele estimou em 1,4 bilhão o número de pellets - pequenas esferas de cerca de meio centímetro de diâmetro - presentes apenas nas praias da bacia de Santos e São Vicente, em São Paulo, pesando um total de cerca de 30 toneladas. Estes pellets são a matéria-prima usada pela indústria na fabricação de sacos, copos e milhares de outros utensílios de plástico que depois vão parar nos lixões, no mar e também nas praias. Segundo ele, este material geralmente é perdido no seu transporte, quando é descarregado de navios ou levado por caminhões para as fábricas.

- É incrível. Antes mesmo de virar um produto, o plástico já está poluindo. E é um contrassenso, já que os pellets são uma matéria-prima valiosa - comenta.

Saco plástico afunda entre recifes no Mar Vermelho: de produto revolucionário à preocupação ambiental
Ninguém está a salvo dos lixões marinhos

Durante séculos, o homem acreditou que, com sua vastidão, os imensos oceanos do planeta seriam capazes de assimilar e diluir o que quer que se jogasse neles. A realidade, no entanto, mostrou-se bem diferente. Em 1997, após participar de uma regata, o americano Charles Moore e sua tripulação voltavam de catamarã do Havaí para o sul da Califórnia quando o capitão decidiu alterar o curso e experimentar uma nova rota, um pouco mais ao norte, passando pela borda do chamado Giro Subtropical do Pacífico Norte, uma grande área do oceano que, apesar das águas calmas, normalmente era evitada pelos marinheiros.

Os anos de experiência no mar, porém, não prepararam Moore para o que ele encontrou lá: pedaços de redes, sacolas, garrafas e tampas; brinquedos, escovas de dentes, tênis e isqueiros. De embalagens de óleo e produtos de limpeza a cones de sinalização em estradas, Moore viu boiando praticamente todo objeto possível de ser feito com plástico. De volta para casa e chocado com a imagem de tanta sujeira em um lugar tão isolado, ele abandonou seu negócio de reforma de móveis para criar a Fundação de Pesquisa Marinha Algalita (AMRF, na sigla em inglês) e estudar o que batizou e passou a ser conhecida como a "Grande Mancha de Lixo do Pacífico".

Com uma área estimada em mais de 1,3 milhão de quilômetros quadrados, o lixão do Pacífico cobre uma extensão maior que o estado do Pará. E também não é o único. Existem mais quatro giros oceânicos semelhantes no mundo, verdadeiros vórtices formados pela ação das correntes marítimas e dos ventos e que lentamente acumulam em seu interior o lixo que chega no mar e eventualmente não é devolvido à costa. Na semana passada, artigo publicado na revista "Science" trouxe uma radiografia de outro destes grandes lixões marítimos, no Atlântico Norte. Ao todo, os cinco giros cobrem mais de 40% da superfície dos oceanos, ou um quarto do globo terrestre.

Não existem estatísticas precisas sobre a poluição oceânica, mas os cálculos são de que passa de 600 milhões de toneladas a quantidade de plástico nos oceanos. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o plástico representa 70% de todos os detritos encontrados no mar, com 46 mil pedaços flutuando a cada 2,58 quilômetros quadrados de oceano. Além disso, estima-se que chegam nos oceanos aproximadamente 10% de toda a produção anual de plásticos, a maior parte (80% a 90%) carregada pelas chuvas e rios de fontes em terra, como aterros sanitários e o descarte direto em mananciais e no litoral.

Um dos grandes obstáculos para chamar a atenção para o problema, porém, é que grande parte desta sujeira não é facilmente visível. Isso porque, embora a maioria dos plásticos não seja biodegradável, a ação do Sol e da água faz boa parte dele se fragmentar relativamente rápido, sumindo da vista humana. A própria Grande Mancha do Pacífico, com uma estimativa de 150 milhões de toneladas de plásticos, é uma sopa de água e poluição com, em média, 10 metros de profundidade.

- Temos que nos preocupar com o que a gente vê e o que a gente não vê. Em algumas partes do oceano, quando se passa uma rede de plâncton (rede muito fina), capturamos mais partículas plásticas, fibras, do que organismos. O plástico some de nossa vista, mas é só pôr num microscópio para vermos que ele está lá - diz Turra.

A primeira vítima de toda essa poluição é a fauna marinha, já que durante os milhões de anos em que estes animais evoluíram eles podiam considerar praticamente tudo que caía na água como alimento. De acordo com relatório da ONG internacional Greenpeace, ao menos 267 espécies, entre tartarugas, mamíferos, pássaros marinhos e peixes, consomem resíduos plásticos ou os levam a seus filhotes julgando tratar-se de comida. Já a ONU calcula que mais de um milhão de pássaros e 100 mil mamíferos e tartarugas marinhas morrem por ano por comerem ou ficarem presos em restos de plásticos. Só no remoto Atol de Midway, próximo ao Havaí, o lixo que vai dar nas suas praias provoca a morte de metade dos 500 mil filhotes de albatrozes que nascem anualmente no local. Já no Brasil, levantamento recente de Fernanda Imperatrice Colabuono, Satie Taniguchi, Rosalinda Carmela Montone, também do Instituto Oceanográfico da USP, encontrou plástico no sistema digestivo de 28% dos pássaros marinhos recolhidos já mortos ou feridos no litoral do Rio Grande do Sul.

Golfinho brinca com pedaço de plástico filme: animais confundem detritos com alimentos e acabam morrendo

- O consumo de plástico pelos animais faz com que grande parte acabe morrendo, tanto por ação mecânica, como engasgamento, quanto por uma sensação falsa de saciedade. Eles param de comer porque estão com o estômago cheio, mas é de lixo - conta o biólogo da USP. - Em toda praia que eu fui nos últimos quatro anos, e foram muitas, eu vi pellets. É um problema ambiental que ocorre de forma disseminada do Sul ao Nordeste do Brasil. Até em locais como Fernando de Noronha eles estão presentes - acrescenta.

Mas os problemas gerados pelo plástico nos oceanos não ficam por aí. Por repelirem a água, as resinas acabam atraindo diversos outros tipos de poluentes hidrofóbicos, principalmente compostos orgânicos venenosos como pesticidas (DDT) e bifenilos policlorados (PCBs), funcionando como verdadeiras esponjas de sujeira. Estas substâncias - além do próprio plástico, tratado com aditivos tóxicos como bisfenol A, que podem causar câncer e infertilidade - vão se acumulando ao longo da cadeia alimentar e chegam aos seres humanos. Um zooplâncton, por exemplo, pode consumir um pedaço microscópico de plástico cheio destes poluentes. Depois, este zooplâncton é comido por um organismo maior, que por sua vez alimenta um pequeno peixe, comido por outros de tamanhos crescentes até chegar no atum, um dos maiores predadores dos oceanos. Por fim, este atum, carregado de produtos tóxicos, é pescado e servido em um restaurante japonês qualquer.

- Assim, o ser humano também acaba sendo indiretamente afetado - comenta Turra.

E, quanto menor é este pedaço de plástico no mar, maior é sua capacidade de agregar outros poluentes, lembra Juliana, da UFPE.

- Quanto mais fragmentado o plástico, maior é sua relação superfície/volume, o que faz com que ele possa carregar uma maior quantidade destas substâncias. E uma infinidade de animais está consumindo estes restos - diz ela.



Redução do consumo e reciclagem são caminho

"Todo mundo é plástico, mas eu amo plástico. Eu quero ser plástico", disse o artista americano Andy Warhol na década de 60. Embora ele se referisse à indústria do entretenimento de Hollywood, não está muito longe da realidade atual. Abolir estas resinas de nosso dia a dia seria muito difícil, para não dizer impossível. Boa parte da comida que consumimos vem acondicionada - e preservada - em embalagens plásticas, e praticamente para qualquer lado que olhemos ele está presente. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), as principais destinações da produção nacional no ano passado foram os setores alimentício (17,5%), de construção civil (15,6%), de embalagens (14,5%) e agrícola (10,6%). Isso, porém, também não quer dizer que não se devam buscar alternativas e soluções. Já existem plásticos biodegradáveis, mas, como eles ainda são bem mais caros do que os comuns, sua fabricação e uso é muito pequena.

Além disso, se por um lado a durabilidade e persistência das resinas plásticas são um problema para o meio ambiente, elas também podem ser parte da sua solução. Como não se degrada, um mesmo plástico pode ser reutilizado várias vezes. Para tanto, porém, é preciso incentivar sua reciclagem, com ações de educação ambiental e coleta seletiva. Segundo dados do Plastivida, instituto sócio-ambiental mantido pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), o índice de reciclagem de plásticos no Brasil estava em 21,2% em 2007. É uma proporção equivalente a de países desenvolvidos como Holanda (20,8%) e Suíça (21,8%), acima da média da União Europeia no mesmo ano (18,3%) e bem superior à dos EUA, que está entre apenas 5% e 10%.

- O plástico sempre pode ser reciclado e este seria o caminho mais lógico. A capacidade de reaproveitamento é justamente um dos trunfos do produto. Não vamos nem podemos abolir os plásticos, mas devemos usá-los com mais sabedoria - defende Alexander Turra, da USP, para quem a primeira coisa a se fazer é implantar sistemas de gestão que, no caso dos pellets, garantam uma perda zero para o meio ambiente, além de maior racionalidade do seu uso em embalagens. - Outro dia ganhei um presente que vinha envolto em cinco folhas de plástico. Para quê isso?

Um dos principais fatores que podem estimular a reutilização dos plásticos é o econômico. Para começar, a fabricação das resinas consome cerca de 8% da produção mundial de petróleo. Com a expectativa de uma crescente escassez, e consequente aumento do preço, do insumo, fazer mais plástico novo vai ficar cada vez mais caro. Além disso, de acordo com relatório do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) deste ano, a indústria da reciclagem poderia gerar ganhos de mais de R$ 8 bilhões anuais no país, com os plásticos respondendo pela maior parte deste potencial econômico, com mais de R$ 5 bilhões.

- Assim, mesmo que a gente não incentive o reuso, o mercado vai acabar regulando isso. Uma hora a reciclagem vai se tornar mais atrativa economicamente e, quando esta hora chegar, vai começar a faltar plástico nos lixões - acredita o biólogo.

Mas há limitações para a reutilização das resinas. A legislação brasileira e em muitos países onde ela existe não permite o uso de plástico reciclado na fabricação de novas embalagens para produtos alimentícios. Desta forma, cada nova caixinha de leite ou pacote de biscoito vai sempre demandar uma boa dose de plástico "virgem".

Enquanto a reciclagem não avança, no entanto, a melhor defesa parece ser mesmo o ataque, com medidas de restrição do uso que levem a uma redução do consumo geral de plásticos. É o caso, por exemplo, de recente lei em vigor no estado do Rio de Janeiro, que determina que supermercados e estabelecimentos comerciais de médio e grande portes substituam os sacos plásticos por sacolas reaproveitáveis. Só no estado são usadas cerca de 200 milhões de sacolas plásticas por mês, ou quase 2,5 bilhões por ano. Para estimular a adesão do consumidor, a medida prevê ainda um desconto de R$ 0,03 no valor da compra para cada cinco itens adquiridos por quem opte não usar os sacos descartáveis, ou um quilo de arroz ou feijão para quem devolver 50 deles para reciclagem.

- Esta é uma excelente medida. As sacolas representam uma boa parte de todo lixo encontrado em terra e nos aterros sanitários e também um grande problema no mar e nas praias. Elas são especialmente danosas para os animais, principalmente tartarugas e mamíferos, que as confundem com alimentos como águas-vivas e as ingerem, ou ficam presos nelas - considera Juliana Assunção Ivar do Sul, da Universidade Federal de Pernambuco.

Legislações semelhantes já existem em vários outros países, que também vão além. No início deste ano, a cidade americana de Concord, no estado de Massachusetts, proibiu a venda de água engarrafada. As garrafinhas de água e outras bebidas são outra praga da poluição por plásticos. Só nos EUA, são usadas 2,5 milhões destas por hora.

- Antes mesmo da reciclagem, o que precisamos mesmo é reduzir o consumo. Estamos vendo um aumento desenfreado da produção de plásticos porque a sociedade já não consegue mais viver sem eles. A redução do uso levará a um menor descarte - acredita a pesquisadora.

E quanto a todo plástico que já está nos oceanos? Neste caso, não há muito o que fazer, lamentam os cientistas.

- Este plástico vai ficar para sempre e, em qualquer ambiente em que ele estiver, terá algum tipo de impacto - diz Juliana.

- Por isso, precisamos trabalhar sempre antes de o problema acontecer. Depois, não tem o que fazer, é só secar gelo, já que a quantidade de plástico que entra no mar é bem maior do que a que pode ser retirada. O que já está no mar não é recuperável, já era, Inês é morta - avalia Turra.
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