Mortes de golfinhos e aves marinhas geram polêmica no Peru

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08/05/2012 - David Jolly de Paris e Andrea Zarate de Lima / NY Times

No ano passado, pescadores começaram a encontrar golfinhos mortos, centenas deles, encalhados na costa norte do Peru. Agora, as aves começaram a morrer também, e o governo ainda não identificou uma causa conclusiva.

Um atobá-de-pata-azul encontrado no domingo (06/05) em uma praia ao sul de Lima. Autoridades dizem que as aves podem estar passando fome, e os golfinhos podem carregar um vírus mortal.
Foto: Mariana Bazo/Reuters
Funcionários insistem que as duas séries de mortes não estão relacionadas. Os golfinhos estão sucumbindo a um vírus, eles sugerem, e as aves marinhas estão morrendo de fome porque as anchovas estão escassas.

Mesmo após três meses de analizes nos golfinhos, o governo ainda não divulgou resultados definitivos, causando uma crescente desconfiança entre o público e os cientistas de que pode haver mais fatos para a história. Alguns argumentam que a exploração offshore de petróleo estariam perturbando a vida selvagem, por exemplo, e outros temem que biotoxinas ou pesticidas podem estar fazendo seu caminho pela cadeia alimentar.

Pelo menos 877 golfinhos e mais de 1.500 aves, a maioria delas pelicanos marrons e atobás, morreram desde que o governo começou a acompanhar as mortes em fevereiro, informou o Ministério do Meio Ambiente na semana passada. Os golfinhos, muitos dos quais pareciam ter decomposto no oceano antes de encalharem, foram encontrados nas regiões de Piura e Lambayeque, não muito longe da fronteira com o Equador.

As aves marinhas que parecem, na sua maioria morreram em terra, foram encontradas de Lambayeque a Lima. "Nunca em meus 40 anos como um pescador vi nada como isso", disse Francisco Ñiquen Rentería, o presidente da Associação de Pescadores Artesanais em Puerto Eten, na região de Lambayeque. "Às vezes, no passado, você aleatoriamente via um golfinho morto ou um pelicano, mas isso que está acontecendo agora, é realmente alarmante."

"É estranho de fato," Gabriel Quijandría, o vice-ministro do Meio Ambiente, reconheceu em um e-mail. "Mas elas não estão relacionados."

O Instituto Oceanográfico do Peru disse que o culpado mais provável nas mortes de golfinhos é o morbillivirus, de uma família de vírus ligados a mortes em massa anteriores de mamíferos marinhos, disse o Sr. Quijandría, embora nos últimos dias as autoridades não terem mostrado certeza disso.

Para as aves marinhas, ele escreveu, a "hipótese mais plausível até o momento" dada pelo Serviço Nacional de Sanidade Agropecuária é que elas estão morrendo por falta de alimento, principalmente anchovas (Engraulis ringens), uma anchova peruana, como resultado do aquecimento súbito das águas costeiras.

O Ministério do Meio Ambiente informou que as mortes de golfinhos não tinham ligação com a pesca, marés vermelhas, biotoxinas, bactérias, metais pesados ​​ou pesticidas. Também descartam qualquer conexão com testes sísmicos offshore por companhias para localizar petróleo e gás no subsolo marinho.

Ainda assim, pescadores, ambientalistas e outros suspeitam que funcionários do governo não estão sendo sinceros.

Um pelicano agonizando é arrastado pelas ondas para morrer na praia em Tumbes, Peru, perto da fronteira com o Equador.
Foto: Silvia Oshiro/Agence France-Presse - Getty Images
A descoberta de animais mortos nas praias perto de Lima, a capital, nos últimos dias complicaram as coisas. No fim de semana, o Ministério da Saúde emitiu um alerta aconselhando as pessoas a evitarem as águas ao redor de Lima e ao norte, "até que saibamos a causa das mortes recentes de espécies marinhas."

Ele aconselhou as pessoas a não comerem frutos do mar crus, muito comuns em aperitivos, e recomendou que as pessoas que estejam lidando com os animais marinhos doentes e mortos a usarem luvas e máscaras. O aviso semeou confusão, dado que declarações anteriores do governo indicavam que as aves provavelmente estavam morrendo de fome, em vez de adoecendo por alguma contaminação.

A costa peruana, alimentado pela corrente fria de Humboldt, é um dos habitats marinhos mais ricos do planeta. Fluindo para o norte a partir de águas da Antártida, a corrente transporta os nutrientes das profundezas do oceano para zonas mais próximas da superfície.

O plâncton é tão abundante nestas águas que a área tem a maior pescaria do mundo, com foco na anchoveta. O peixe é um importante componente da dieta dos golfinhos, aves marinhas e outros predadores.

O Ministério do Meio Ambiente diz que os dados do Instituto Sul-Americano para o estudo do efeitos do El Niño mostram que as temperaturas das águas costeiras têm sido acima da média nos últimos meses. As anchovetas preferem a água mais fria, e se elas descem abaixo de uma profundidade de seis ou sete pés, os pelicanos não podem alcançá-las.

Essa explicação não satisfaz Juan Sernaque Juárez, 34, um pescador do norte da cidade de Tumbes, que relaciona a mortandade com testes sísmicos por empresas de petróleo e gás. Ele disse que ele e alguns de seus vizinhos tinham entrado em greve há alguns meses para protestar contra o teste, que eles acreditam matar golfinhos, pássaros e leões-marinhos. "Mas isso não funcionou", disse ele, "e agora nós, principalmente, somos os que sofrem os resultados."
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Em testes sísmicos offshore, navios rebocam matrizes de armas de ar comprimido que liberam ar de alta pressão sob a água, produzindo ondas sonoras que podem ser analisadas ​​e localizarem petróleo e gás nas profundezas do oceano.

Navio realiza pesquisa sísmica marítima utilizando disparos de ar comprimido
Foto: Governo da Nova Zelândia
Mas o Sr. Quijandría, o vice-ministro do Meio Ambiente, disse que os golfinhos não haviam mostrado sinais de danos aos órgãos internos, estruturas do ouvido ou ossos que seriam consistentes com ferimentos acasionados por explosões submarinas.

Uma das empresas de exploração, BPZ Energia, divulgou um comunicado afirmando que suas operações foram realizadas ao norte da área onde os golfinhos encalharam e que as mortes começaram antes de iniciarem suas pesquisas recentes.

Ñiquen Rentería, 57, de Puerto Eten, que pesca pequenos tubarões e linguados, afirma que o governo está subestimando a extensão das mortes de golfinhos. Ele disse por telefone que viu pelo menos 3.000 golfinhos mortos na praia desde novembro e que eles ainda estavam morrendo, embora o número estivesse diminuindo.

Mas o Sr. Quijandría disse que não havia provas de que muitos golfinhos morreram.

Os meios de comunicação peruanos levantaram a possibilidade de que os pesticidas podem estar envenenando os animais. Pedro Alva, presidente do Instituto de Desenvolvimento Regional em Lambayeque, sugeriu que o esgoto bruto ou outro efluente poderia ser o culpado.

"É insuportável andar em torno dessas áreas", disse o Sr. Alva sobre as cidades que crescem rapidamente ao longo da costa. "Eles despejam os seus resíduos industriais e residenciais para o oceano sem controle, sem consideração".

Sophie Bertrand, um ecologista marinho do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento na França, que está liderando um projeto de pesquisa sobre aves marinhas e leões-marinhos no Peru, disse que se houvesse um fator comum que ligasse as mortes, ele provavelmente seria encontrado na anchoveta, comido por todas as espécies envolvidas.

Mesmo que os pesquisadores peruanos pareçam ter excluído as biotoxinas como um possível agente, ela escreveu em um e-mail, "existem muitas e pode ser difícil realizar testes para todas elas."
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