Água potável? Estudo aponta mais de 500 substâncias em amostras de água tratada, dentre elas cafeína, hormônios, remédios, herbicidas e bactericidas

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09/10/2012

Estudo da Unicamp aponta que 16 capitais possuem água potável contaminada

Os resultados aparecerão a longo prazo em nossa saúde.
 
Pesquisa desenvolvida pelo Instituto Nacional de Ciências e Tecnologias Analíticas Avançadas (Inctaa), sediado no Instituto de Química na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostra que a água potável fornecida em 16 capitais brasileiras, onde vivem aproximadamente 40 milhões de pessoas, apresenta contaminação por substâncias que podem ser nocivas à saúde humana.

Os pesquisadores identificaram, por exemplo, concentrações variadas de cafeína, atrazina (herbicida), fenolftaleína (laxante) e triclosan (substância presente em produtos de higiene pessoal). No entanto, as substâncias encontradas não figuram na lista de compostos que devem ser monitorados pelas concessionárias de água, antes de distribuí-la como potável.

“Já dispomos de estudos científicos que apontam que esses compostos têm causado sérios danos aos organismos aquáticos. Está comprovado, por exemplo, que eles podem provocar a feminização de peixes, alteração de desenvolvimento de moluscos e anfíbios e decréscimo de fertilidade de aves”, diz Wilson Figueredo Jardim, professor titular do Instituto de Química da Unicamp, coordenador da área de contaminantes emergentes do Inctaa.

De acordo com o professor, há indícios de que os contaminantes não legislados, especialmente hormônios naturais e sintéticos, como o estrógeno, que podem provocar mudanças no sistema endócrino de homens e mulheres.

A análise da água potável feita pelas concessionários distribuidoras é executada baseado na portaria do Ministério da Saúde (MS) número 2.914, de dezembro de 2011, que determina quais substâncias devem ser monitoradas. A portaria sofre frequentes alterações, em decorrência dos novos compostos que são encontrados nos mananciais, mas, segundo o professor, as mudanças não são feitas na velocidade ideal.

“A parte legal caminha sempre com uma certa defasagem. Alguns compostos não legislados [que não estão incluídos na portaria do MS] começam a aparecer na água de abastecimento e têm trazido uma certa preocupação porque há evidências claras da ação deles nas comunidade aquáticas”, destaca Jardim.

“Nós não temos nada pesquisado sobre a exposição humana a esses compostos, porque é uma exposição crônica e basicamente leva anos para se ter alguma evidência. A gente então tem de esperar muito tempo”.

A pesquisa da Inctaa contou com a participação de 25 pesquisadores da Unicamp, Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) e Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O Ministério da Saúde foi procurado, mas até o fechamento da matéria não havia respondido.

Os resultados do estudo confirmam que as estações de tratamento existentes no país não conseguem eliminar todos os contaminantes. Os mananciais se degradam num ritmo muito rápido por conta do esgoto, enquanto o tratamento de água é feito de modo secular. Já existem tecnologias para remover essas substâncias, mas custam muito caro. 

Considerações finais

A ciência despertou há pouco tempo para problemas dos contaminantes emergentes. Um dos brasileiros que investigam o tema é o professor Ricardo Luvizotto Santos, do curso de oceanografia da Universidade Federal do Maranhão. Ele estudou o efeito que hormônios femininos como o estrógeno, que chegam aos rios pelo esgoto, têm em populações de peixes. Em um dos trabalhos, cultivou peixes em água retirada do Rio Monjolinho, em São Paulo (SP). Em outro, coletou tilápias do Rio Bacanga, de São Luís (MA). Nos dois casos, descobriu que os machos passaram a produzir proteínas tipicamente femininas.

Até o momento, não há estudos que indiquem os efeitos do consumo da água com substâncias contaminantes para humanos. Em organismos aquáticos, já há registros de feminilização de peixes, alteração de desenvolvimento de moluscos e anfíbios e decréscimo de fertilidade de aves.

Dr. Luciano Peske Ceron
Doutor em Engenharia de Materiais (Filtração/Particulados), Mestre em Polímeros (Não tecidos), Engenheiro Químico, Especialista em Gestão Ambiental e Gestão Empresarial. Professor Adjunto do Curso de Engenharia Química na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS.
Tel: 51 9972 6534
E-mail: Ceron.Luciano@gmail.com

Fontes: Agência Brasil e Revista TAE
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