Doenças emergentes transmitidas por vetores são o novo desafio da saúde pública mundial

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05/12/2012

As atividades humanas estão avançando a propagação de doenças zoonóticas, tais como a Febre do Nilo Ocidental, a doença de Lyme e a Dengue, relatam os cientistas que publicaram uma série de artigos na revista The Lancet.

Doenças zoonóticas originárias de agentes causadores de doenças ou patógenos que infectam naturalmente a vida selvagem são transmitidas ao homem por organismos vetores, como mosquitos e carrapatos. Em suma, são doenças transmitidas de animais para seres humanos.


A utilização da terra de forma incontrolada, o comércio global, o turismo mal planejado e os distúrbios sociais estão impulsionando o surgimento de doenças zoonóticas em todo o mundo, disse o biólogo Marm Kilpatrick, que estuda a ecologia das doenças infecciosas na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz. 

Kilpatrick é co-autor de um dos diversos trabalhos publicados no The Lancet, uma das revistas científicas mais conceituadas na medicina, junto com Sarah Randolph, da Universidade de Oxford. Os artigos são parte de uma série especial na revista focada em doenças zoonóticas emergentes.

"O aumento da população humana e da urbanização, e a intensificação agrícola em áreas naturais, colocou forte pressão seletiva nos patógenos para infectarem os seres humanos, e para ser transmitidos por vetores e hospedeiros que vivem em torno dos seres humanos", disse Kilpatrick. 

O Turdus migratorius, muito semelhante ao nosso sabiá-laranjeira, desempenha um papel fundamental na disseminação do vírus causador da Febre do Nilo Ocidental pela América do Norte

"Os seres humanos estão alterando o ambiente, mudando a nós mesmos e outros organismos em todo o mundo a um ritmo cada vez maior", disse Sam Scheiner, diretor do programa de Ecologia e Evolução de Doenças Infecciosas (EEID) da Fundação Nacional de Ciência (NSF). "Nossa rápida expansão levou ao aumento de doenças emergentes." 

O EEID é um esforço conjunto da NSF com o Instituto Nacional de Saúde. Na NSF, o Diretório de Ciências Biológicas e Geociências financia o programa.

O EEID financiou grande parte da pesquisa discutida na revista Lancet. "Esses estudos mostram como e por que as doenças zoonóticas estão surgindo, e o que precisamos saber para amenizar a propagação", disse Scheiner. Os documentos "oferecem uma ponte entre ecologistas e médicos cujos os esforços combinados são necessários para enfrentar os desafios contínuos de doenças zoonóticas emergentes", disse Kilpatrick.

Médico em um centro de quarentena para infectados por ebola na África

Peter Daszak, presidente da Aliança EcoHealth na cidade de Nova York e autor de um dos artigos da série completou, "Zoonozes Pandêmicas como a SARS, Ebola e HIV são devastadoras quando elas surgem. Os estudos mostram que possuímos novas maneiras de prever as origens, de descobri-las antes mesmo de chegar a nossa população - um mundo verdadeiramente novo para a prevenção de pandemias".

Há dois tipos de doenças infecciosas emergentes: introduzidas e localmente emergentes.

Doenças introduzidas surgem a partir da disseminação de um patógeno para um novo local, como quando o vírus do Nilo Ocidental chegou a Nova York em 1999 e, posteriormente, se espalhou pela América do Norte. 

Doenças localmente emergentes preocupam mais em áreas onde são endêmicas, como com a doença de Lyme nos Estados Unidos durante as últimas três décadas.

Estes dois tipos de doenças emergentes podem diferir acentuadamente em relação à dinâmica da infecção ou do número de casos ao longo do tempo.

"Doenças introduzidas muitas vezes causam um grande aumento de infecções, e depois diminuem substancialmente. Doenças emergentes localmente, costumam apresentar um aumento contínuo e uniforme".

O propagação de patógenos através do comércio e turismo internacional resulta no surgimento de doenças em novas regiões. Uma vez estabelecidos, patógenos introduzidos muitas vezes evoluem para se beneficiarem de seus novos ambientes, incluindo novos hospedeiros e vetores.

Com grande parte da paisagem moldada por atividades humanas, os patógenos podem evoluir, infectando outros hospedeiros e vetores que se adaptam aos ambientes artificiais.

O surgimento de doenças endêmicas transmitidas por vetores pode ser resultado das mudanças no uso da terra, como a ocupação de habitats, ou de mudanças ambientais que afetem os animais selvagens que servem como hospedeiros naturais e os insetos vetores que transmitem a doença aos seres humanos.

Apesar das doenças transmitidas por vetores serem sensíveis ao clima, as alterações climáticas não parecem ser uma importante força motriz por trás das doenças emergentes.

"Até agora, as mudanças climáticas tem sido um ator coadjuvante em relação ao uso da terra e fatores socioeconômicos no surgimento de doenças de transmissão por vetores", disse Kilpatrick. 

Mudanças sociais e econômicas, que vão desde crises econômicas ao deslocamento de populações por conflitos armados, frequentemente dão início a surtos de doenças através de seus efeitos sobre os sistemas de saúde pública, sistemas de saneamento, padrões de comportamento e usos dos recursos naturais.

A incidência de qualquer doença transmitida por vetor envolve uma complexa interação de múltiplos fatores que afetam animais hospedeiros, vetores e pessoas. Kilpatrick e Randolph enfatizam que o controle dessas doenças requer esforços combinados de médicos e funcionários da saúde pública para o tratamento dos pacientes, promoção de hábitos que minimizam o risco de infecção, e aconselhamento sobre os esforços para reverter os mecanismos ecológicos de transmissão através do controle de vetores, planejamento urbano e recuperação ambiental.

Fonte: Medical Xpress
Tradução: William R. Schepis/Instituto EcoFaxina