Entulho e lixo tomam conta de São Vicente, mas Prefeitura diz que coleta está normal

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01/12/2012

“São Vicente está uma sujeira só”. A frase de Kátia de Jesus, moradora do Jardim Irmã Dolores, sintetiza o sentimento da população nas últimas semanas. Embora a Prefeitura garanta que a coleta de lixo esteja normal, os caminhões não estão percorrendo as vias com a mesma frequência. E, em relação aos entulhos, várias esquinas estão se transformando em depósitos a céu aberto.

Na contramão, uma moradora usa a mesma área para plantar flores

Os problemas não se restringem a um bairro. No decorrer dessa semana, foram inúmeras denúncias, em diversos pontos da Cidade. Na terça-feira à noite, por exemplo, a Rua Cuiabá, no Parque São Vicente, tinha todas as suas lixeiras tomadas. No dia seguinte, foi a vez de moradores da Vila Jóquei Clube fazerem reclamações semelhantes. Na quinta-feira a revolta tomou conta da população da Área Continental.

Na manha desta sexta-feira, A Tribuna flagrou um caminhão em uma via da Vila Ponte Nova. Este mesmo veículo tinha acabado de passar pelo antigo Quarentenário. Mas, a normalidade parou aí.

No bairro vizinho, o Jardim Rio Branco, os sinais de que o problema é real. O lixo toma conta do cruzamento das ruas 4 e 7. Reflexo de uma população revoltada que, se sentindo lesada, resolveu protestar na noite da última quinta-feira.

Na área continental, motorista tenta desobstruir a rua, interditada por sacos de lixo que formaram uma barricada

“Eles (caminhões de lixo) só estão passando pelas ruas principais. As que são de terra estão sendo ignoradas”, denuncia a dona de casa Josefa de Lourdes. Ela estava entre o grupo que montou uma barricada com sacos de lixo. Barreira essa que, ainda na manhã de ontem, permanecia atrapalhando o tráfego de veículos.

Um motorista, ao se deparar com a situação, demonstrou revolta. Desceu do carro e utilizando as mãos e os pés empurrou o obstáculo para os lados. Proferindo palavrões, ele não quis dar entrevista. Mas, em meio à sua indignação, soltou uma frase que exprime um sentimento generalizado. “Esses ladrões não fazem nada e sobra para a gente.”

Faz tempo que o caminhão de lixo não passa em alguns pontos da Área Continental

Culpa

É bem verdade que, muitas vezes, a culpa pela sujeira precisa ser compartilhada com a própria população. Isso ficou evidenciado no Humaitá. Em um terreno gigantesco, onde no passado havia um shopping center em ruínas, o lixo e o entulho avançam de tal forma que metade da pista da Rua Adalberto Aparecido Simplício já está tomada.

Em 15 minutos no local, a Reportagem flagrou quatro moradores se dirigindo a essa montanha de entulho e despejando mais detritos. Primeiro foi uma senhora, que abriu o portão de sua casa e atirou, de longe, uma sacola plástica amarela. Não tardou para aparecer um homem, com um carrinho de mão carregado de areia, pedras e pedaços de madeira.
Na sequência, um homem que disse ter caminhado três quadras com um balde cheio de areia no ombro demonstrou revolta. 

“Isso aqui está uma vergonha. A população precisa se conscientizar e a Prefeitura tem que remover isso o mais rápido possível”, denunciou.

Ao ser questionado se ele não deveria fazer a sua parte, uma resposta incoerente retratou o quanto a mentalidade do cidadão precisa mudar. “Mas o meu entulho não tem problema, porque eu não jogo na ponta. Eu uso como aterro e jogo no meio do terreno”, disse.

Enquanto ele falava, uma mulher que aparentava 30 anos voltava do supermercado com suas compras. Aproveitou que passava em frente ao grande depósito improvisado e jogou outra sacola com lixo.

Acompanhando tudo isso de perto, Dona Maria parece não acreditar. Ela mora na esquina dos absurdos e rema contra a maré. Há mais de ano tenta combater o avanço do lixo plantando no terreno. Tomates e girassóis são suas conquistas. 

“Eu faço minha parte. Mas, no fundo, sei que não adianta”, lamenta, antes de concluir. “A natureza é linda, mas o homem consegue destruir.”

Fonte: A Tribuna