Recuperação da bacia Matanza-Riachuelo continua distante

Compartilhe:

14/02/2013

O processo de limpeza da bacia do rio Matanza-Riachuelo, que em seu curso final faz fronteira com a capital argentina, mostra um progresso notável. Mas o maior desafio continua sendo a descontaminação da água, poluída por séculos de descaso.

Os assentamentos humanos irregulares na margem do rio Riachuelo aumentam a carga de poluentes.
Crédito: Geografía Urbana y Rural

"Ainda não podemos ver mudanças químicas no rio", admitiu o bioquímico Oscar Deina, executivo-chefe da Autoridade da Bacia Matanza-Riachuelo (ACUMAR), criada em 2006 e composta por representantes do governo nacional, da cidade de Buenos Aires e 14 distritos adjacentes.

Desde a intervenção da ACUMAR, as margens do rio, que marcam o limite sul da cidade de Buenos Aires, tem florestas, e não mais o lixo e assentamentos humanos irregulares. O lixo no leito foi removido, e controles sistemáticos das indústrias e obras são realizados para tratar águas residuais.

Já não se veem ilhas de lixo flutuante e esqueletos de navios enferrujados. Mas a água ainda tem o mesmo nível de poluição de quando as medições começaram há cinco anos. O oxigênio é baixo, nitrato, fósforo, óleos, hidrocarbonetos e metais pesados ​​como arsênio, chumbo, cromo e cobre são abundantes.

O rio começa com o nome do Matanza e vai até o nordeste da província de Buenos Aires, mudando seu nome para Riachuelo quando atinge as fronteiras da capital argentina, e deságua no Rio La Plata, perto do famoso bairro de La Boca.

A extensão de 64 quilômetros do curso d'água e seus 232 afluentes formam uma bacia de 2.240 Km², onde cerca de seis milhões de pessoas vivem ao lado de 25 mil estabelecimentos comerciais e industriais.

A constante poluição desse rio já dura mais de 200 anos. Ele tem sido alimentado de lixo, efluentes industriais e esgoto sem tratamento, o que o torna no curso d'água mais tóxico no país.

Mas a decisão em 2006 da Suprema Corte Argentina, ordenando a recuperação ambiental da bacia e a melhoria na qualidade de vida das comunidades mais afetadas, foi um marco para essa transformação.

O tribunal nomeou Luis Armella para a fiscalização do cumprimento da sentença e envio periódico de relatórios sobre o andamento do processo de limpeza, mas ele foi posteriormente envolvido em um escândalo de corrupção e afastado do caso.

Apesar desses obstáculos, o plano de recuperação está avançando, e organizações não-governamentais que monitoram o processo reconhecem os progressos.

Mas seis anos após a decisão, a falta de progressos na melhoria da qualidade da água do rio continua a causar preocupação.

Este mês, o Greenpeace divulgou um relatório intitulado "Las aguas siguen bajando turbias" (As águas seguem descendo turvas), que analisa os resultados dos controles efetuados sobre os 60 pontos de monitoramento instalados pela ACUMAR.

O estudo vai para uma análise da Associação de Moradores de La Boca, que reconheceu que "é a primeira vez na desastrosa história de dois séculos de poluição que melhorias se concretizam na bacia", mas também observou a continuidade da poluição.

"A análise do Greenpeace mostra que a qualidade da água não obteve progressos concretos ou tendência que evidencie melhoria", diz o estudo, e depois queixam-se que os protocolos da ACUMAR "são pouco exigentes" com resíduos industriais.

O relatório também questiona a falta de ambição do plano de recuperação, que visa alcançar um "uso recreativo passivo" do rio, trabalhando apenas para melhorar a paisagem para aqueles navegam ou transitam a pé ao longo de suas margens, sem tornar possível alguma forma de contato com a água.

"Há pontos onde você pode ver uma melhoria (na qualidade da água), mas esses ganhos são revertidos em testes posteriores, o que significa que a tendência não é favorável", disse a coordenadora de campanhas do Greenpeace para o Riachuelo, Lorena Pujo, à IPS.

A especialista acredita que a ACUMAR deve estudar a capacidade do rio de se purificar e o nível de efluentes que pode tolerar, acrescentando que quando normas fracas são implementadas, as indústrias conseguem simplesmente diluir os poluentes, e o rio continua a ser poluído, permanecendo sem oxigênio.

"A ideia não é que as empresas vão poluir outro lugar, mas que mudem a forma de produzir, começando com as maiores, gerando um maior impacto", disse Pujo. Ela reconheceu que a mudança não pode vir durante uma noite, mas previu que, se o trabalho for realizado de forma correta agora, o progresso será visível em 25 anos.

Até mesmo o CEO da ACUMAR, Oscar Deina, disse à IPS que os objetivos do plano estão "sob revisão".

"Focar no uso recreacional (do rio) foi a primeira etapa... agora nós aspiramos muito mais. É verdade que, no curso d'água ainda não conseguimos ver mudanças químicas, mas retiramos pilhas de detritos, resíduos e lixo. Nós recuperamos as margens e encostas, e limpamos a paisagem ", acrescentou Deina.

"A questão industrial é o mais difícil para nós, porque temos que conseguir a adequação", reconheceu. Deina disse que 1.700 dos mais de 25.000 estabelecimentos registados são poluidores, e que cerca de 800 estão terminado obras necessárias em conformidade com os esforços de adequação, mas precisa ser feito mais.

"Estamos conversando com as empresas para que saibam que os requisitos são um primeiro passo, mas mais tarde, dependendo da localização da empresa e do fluxo do rio, em cada caso, vamos determinar quanto efluente elas podem lançar", explicou.

De acordo com Deina, há registros de ecossistemas em recuperação na parte superior da bacia, admitindo ser o setor menos afetado pela poluição. "Na parte central e inferior da bacia as complicações são maiores", disse.

Ele também assegurou que o uso do rio poderia ser recategorizado e modificado. Disse que os parâmetros para despejo de materiais perigosos podem ser reduzidos, acrescentando que tal processo requer uma melhor compreensão do "fluxo e dinâmica" da bacia do rio.

Em maio, uma equipe de especialistas de universidades localizadas na bacia vai estudar o que fazer com o lodo, que responde pela maior parte da poluição no leito do rio.

"Há quatro a seis metros de sedimentos. Alguns dizem que não se deve tocá-lo para que ele não interaja com a coluna de água, mas outros afirmam que ele deve ser retirado. Temos que analisar isso", disse Deina.

Fonte: Marcela Valente / IPS