Cientistas da USP usam navio para estudar ciclo de carbono marinho

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13/03/2013

Pesquisadores coletam água de diferentes profundidades do mar.


A cena lembra a de um bando de retirantes aglomerados em volta de um carro-pipa no sertão nordestino. Só que no meio do oceano.

Assim que cada garrafão é içado das profundezas pelo guincho, uma fila de pesquisadores com baldes, galões e garrafas térmicas vazias se forma no convés do Navio Oceanográfico Alpha Crucis para coletar o líquido precioso. Em poucos minutos, a água é separada e distribuída pelos laboratórios da embarcação: 60 litros para genética de bactérias, outros 60 litros para análise de clorofila, mais 20 litros para microscopia de plâncton, e por aí vai. Dia após dia, garrafa após garrafa, o ciclo se repete cada vez que o navio "estaciona" em um novo ponto de coleta.

O navio oceanográfico de pesquisas Alpha Crucis em 30/05/2012 durante a solenidade de entrega da embarcação no porto de Santos.

O líquido tão cobiçado pelos cientistas parece não ter nada de especial. É água do mar, transparente e inodora; aparentemente igual à que qualquer criança poderia coletar com um baldinho na orla de Santos. Só que as aparências enganam. O navio está em alto-mar, a 200 milhas náuticas (370 km) do Porto de Santos, e o leito do oceano aqui não dá pé para ninguém - está mais de 2 mil metros abaixo do casco do Alpha Crucis, submerso em escuridão eterna. As amostras de água coletadas aqui são bem diferentes das da praia, e valem ouro para a oceanografia brasileira.

"É água, sim, mas uma água muito cara", resume, com precisão germânica, o alemão Rudiger Rottgers, único estrangeiro a bordo, numa equipe de 18 professores e jovens cientistas de universidades de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Norte e Paraíba.

Cada dia do Alpha Crucis no mar custa cerca de R$ 54 mil, incluindo combustível, alimentação, salários da tripulação e outros gastos operacionais. O navio, de US$ 11 milhões, foi comprado em 2012 pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), com a proposta de revolucionar as ciências oceânicas no Brasil. Com 64 metros e capacidade para passar até 70 dias contínuos no mar, é o maior navio de pesquisa civil da história da oceanografia nacional.

É fim de janeiro. Esta é a quarta expedição de pesquisa do Alpha Crucis desde que o navio chegou ao Brasil, em maio do ano passado. Três delas dedicadas ao projeto Carbom (Caracterização Ambiental e Avaliação dos Recursos Biogênicos Oceânicos e da Margem Continental Brasileira e Zona Oceânica Adjacente), que tem como objetivo descrever e quantificar todos os processos relacionados ao ciclo de carbono no oceano brasileiro. Um desafio de proporções oceânicas, literalmente.

Os resultados serão cruciais para o estudo de questões relacionadas às mudanças climáticas, à sustentabilidade da pesca, à biotecnologia e à conservação da biodiversidade marinha. "O carbono é a base de tudo, pois é a matéria-prima da matéria orgânica que alimenta todos os processos biológicos e muitos dos processos bioquímicos do oceano", justifica o pesquisador Frederico Brandini, do Instituto Oceanográfico da USP, que coordena o projeto.

O objetivo é descrever como gira a "economia de carbono" do oceano brasileiro, quantificando tudo que entra e tudo que sai, quanto fica estocado, por quanto tempo, de que forma (no plâncton, nos peixes, nos sedimentos ou dissolvido na água), e qual o saldo disso tudo para os seres humanos, os seres marinhos e o planeta como um todo. "Sabemos como esses processos funcionam qualitativamente, mas precisamos entendê-los também quantitativamente para tomar decisões. Precisamos de números", explica Brandini.

Toda essa contabilidade está embutida de alguma forma nas amostras de água trazidas a bordo. Por mais transparentes que sejam, elas contêm "escondidas" dentro delas milhões de células de plâncton e de moléculas orgânicas dissolvidas. As quantias variam de acordo com a profundidade, a distância da costa e outras características geofísicas do local. E é justamente nessas diferenças que os cientistas estão interessados.

A expedição dura seis dias, com poucas horas de sono entre cada um. O navio não para de se mexer jamais, e a sensação é que o trabalho a bordo também não para nunca. Centenas de amostras de água, de várias profundidades, são coletadas de um total de 14 pontos (chamados "estações oceanográficas") selecionados ao longo do percurso, para serem levadas de volta a terra para análise.

É só o início de uma longa jornada científica oceânica, prevista para consumir três anos de pesquisa, incluindo mais dez expedições com o Alpha Crucis no Sudeste e no Nordeste. O Carbom faz parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para o Oceanos, envolvendo 14 instituições e 120 cientistas.

Fonte: O Estado de S. Paulo