Declínio da biodiversidade preocupa comunidade científica

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17/07/2013

Cientistas consideram o atual cenário como o sexto episódio de extinção em massa ocorrido na história do nosso planeta.

Nos últimos cem anos, 75% da diversidade genética de culturas agrícolas da Terra foi perdida; apenas 30 tipos de alimentos, principalmente arroz, trigo e milho, são responsáveis por 95% da energia dos alimentos consumidos por nós. Este é apenas um dos dados preocupantes do cenário em que se encontra a biodiversidade do planeta. Alguns cientistas acreditam estarmos passando pelo sexto grande episódio de extinção da história do planeta.

Monocultura de soja em região amazônica.

Ativistas do Greenpeace bloqueiam navio de pesca em protesto contra a pesca predatória. Crédito: Greenpeace

Estas informações foram apresentadas pelo Presidente da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas (IPBES), Zakri Abdul Hamid, neste mês, durante a Reunião Regional da América Latina e Caribe na sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). 

De acordo com ele, a perda de biodiversidade é atualmente a ameaça mais importante à vida e ocorre em todos os lugares do planeta, principalmente devido às mudanças climáticas e à pressão em cima da superprodução de alimentos para atender a demanda da crescente população mundial.

Hamid ressaltou também que 22% das raças de bois se encontram sob risco de extinção. “A perda de diversidade genética de animais domésticos reflete a falta de visão geral do valor de raças nativas e de sua importância na adaptação às mudanças climáticas globais”, afirmou à Agência Fapesp. Para ele, isso é consequência de incentivos à promoção de raças mais uniformes e da seleção focada de produtos agropecuários.

O pesquisador afirmou, ainda, que o principal desafio do IPBES, após oito anos de negociações internacionais, é alertar o mundo sobre este declínio na diversidade das espécies de plantas e animais que está ocorrendo na Terra.

Congresso Nacional

A demora do Congresso Nacional em ratificar o acordo internacional que dá as regras para o acesso e a repartição de benefícios do uso dos recursos genéticos da biodiversidade pode prejudicar o Brasil.

“A pior situação possível para o Brasil, o lugar com mais biodiversidade do mundo, é chegar à próxima conferência internacional, em 2014, com 50 países tendo ratificado o protocolo, e o Brasil, não”, alerta o pesquisador Carlos Joly, coordenador do programa Biota, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Em 2010, delegações de quase 200 países chegaram a acordo sobre o protocolo, em conferência no Japão. Quase cem países assinaram o acordo e 18 o ratificaram internamente. Quando tiver sido ratificado por 50 países, o protocolo entrará em vigor. Se essa for a situação em outubro de 2014, na Coreia do Sul, quando está marcado outro encontro internacional, os 50 países começam a definir os detalhes do acordo. “Só quem tiver ratificado o protocolo vai poder discutir, e o Brasil corre o risco de ficar de fora.”

O governo encaminhou o assunto ao Congresso em maio de 2012. A Câmara dos Deputados precisa criar uma comissão especial para discutir o tema, mas ainda não criou. Até agora, 18 países ratificaram o protocolo. “Há uma visão equivocada do assunto”, diz Joly. “O governo não consegue ver o valor estratégico que a legislação de acesso aos recursos genéticos tem, do ponto de vista produtivo, para o país”, afirma o pesquisador. “O Brasil só tem a ganhar com o Protocolo de Nagoya.”

A visão equivocada passa pela interpretação de alguns representantes do agronegócio, segundo os quais o Brasil terá, por exemplo, que pagar pelo milho andino. “O protocolo não é retroativo”, disse Zakri Abdul Hamid, presidente do IPBES, sigla em inglês para Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas. É algo como o IPCC – o braço científico da ONU para mudança climática -, mas para biodiversidade.

Zakri está no Brasil para participar de um encontro regional da América Latina promovido pelo Biota-Fapesp e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). A reunião, que acontece esta semana em São Paulo, discute um plano para que os cientistas que trabalham com biodiversidade produzam diagnósticos regionais. O objetivo é um grande relatório, que irá mostrar o estado da biodiversidade no mundo e será lançado em 2018. “A biodiversidade é elemento crucial para a sobrevivência da humanidade”, disse Zakri.

A antropóloga Maria Manuela Carneiro da Cunha, da Universidade de Chicago, falou sobre a contribuição dos conhecimentos de comunidades tradicionais para o tema. Lembrou o perigo que existe em se restringir a diversidade de culturas. Citou a fome na Irlanda, que matou 1 milhão de pessoas entre 1845 e 1849. Embora existissem mais de 400 variedades de batatas nos Andes, só duas foram levadas para a Irlanda. Houve uma praga e os irlandeses morreram de fome. “A variedade genética é fundamental”, disse. No Rio Negro, na Amazônia, há mais de cem variedades de mandioca, porque as mulheres, que a cultivam, fazem experiências com as variedades e as trocam entre si.


Fontes: Horizonte Geográfico e Jornal Valor Econômico