Destruição de habitat e poluição contribuem para ataques de tubarões, dizem especialistas

Compartilhe:

28/07/2013

Enquanto um grupo defende a matança dos bichos e ambientalistas culpam o homem pelos ataques, um instituto propõe esticar uma rede para proteger banhistas e surfistas no litoral de Pernambuco.

Alertas na praia de Boa Viagem
Depois de ter seu habitat alterado, os tubarões ficaram desorientados e se aproximaram dos banhistas que lotam as praias recifenses, como a de Boa Viagem.
Desde 1992, quando os ataques de tubarões começaram a ser tabulados em Pernambuco, foram registrados 57, com 22 mortos e 35 feridos. Com o maior desenvolvimento do porto de Suape, a presença dos animais próximo à área dos banhistas nas praias do Recife tem ficado cada vez mais constante. Diante disso, o poder público e a sociedade civil se organizam para evitar que os ataques continuem. De um lado, há os integrantes do Manifesto P5, que simplesmente defendem a matança dos bichos. Do outro, ambientalistas radicais pretendem liberar as praias aos tubarões. Entre um e outro extremo, uma saída está prestes a ser testada.

Trata-se da instalação de uma rede para separar as duas espécies dentro d’água. A ideia vem do Instituto Praia Segura, formado por surfistas, médicos e empresários. O projeto começa com uma rede de 400 metros de extensão e sete de altura, protegendo uma área na praia de Boa Viagem. Os primeiros testes estavam previstos para dezembro de 2012, mas, devido a mudanças na gestão de órgãos estaduais e federais, novas licenças foram exigidas. E elas não são poucas. É preciso obter liberações ambientais e da Marinha e definir, por exemplo, a responsabilidade civil por danos eventuais.

Integrante do Instituto Praia Segura experimenta rede para barrar tubarões no Recife. Testes com o modelo definitivo foram adiados devido à burocracia.
Segundo o coordenador do grupo, Sérgio Murilo Filho, a meta é promover o retorno dos esportes náuticos à região. “Seriam eventos pontuais. Nossa intenção não é instalar a tela e deixá-la ali”, explica. Essa estratégia é a única considerada viável pelo Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit). “Essa proposta seria para os fins de semana. Depois, as redes devem ser retiradas”, diz Rosângela Lessa, presidente do Cemit, que agrega outras seis instituições, entre elas a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco. Principais interessados na discussão, surfistas esperam ansiosos uma solução. Entre eles, está Charles Heitor Barbosa Pires, fundador da Associação das Vítimas de Ataques de Tubarão (Avituba). “Sou a favor da instalação. Se fosse na época em que eu surfava, isso teria evitado casos fatais.” Ele perdeu as duas mãos em um ataque ocorrido no dia 1º de maio de 1999.

O entusiasmo pela instalação das redes não é unânime. “Há sempre o risco de animais ficarem presos”, diz Marcelo Szpilman, diretor do Instituto Aqualung e biólogo. Ele exime os tubarões de qualquer culpa na história. “Quando o porto de Suape foi construído nos anos 1970, o mangue no local foi aterrado e duas bocas de rios foram fechadas. Esses locais eram usados para a desova.” Desorientados, os tubarões mudaram de rota e passaram a interagir mais de perto com o homem. Apesar dos ataques, não fazemos parte do cardápio do animal. Se fizéssemos, o número de casos sem sobreviventes seria bem maior.

"O mar é a casa dos tubarões, a praia é a casa dos seres humanos. Quando entramos no mar, invadimos a casa deles", afirmou Fábio Hazin, pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco durante o Encontro Anual da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência. Ele se mostrou contra algumas medidas bastante populares, como a vontade de pescar e sacrificar os tubarões que se aproximarem do litoral ou fechar as praias da Região Metropolitana do Recife ao banho. "Não há necessidade de sacrificar os animais. Também não acho que haja fundamento o fechamento das praias e, se forem fechadas, que seja por afogamento, que mata muito mais do que os tubarões ao longo do ano", disse.

"Fomos nós que causamos esse problema, nós é que temos que resolvê-lo. O estado se beneficiou de Suape, então devemos construir uma solução que permita que os animais vivam em seu ecossistema de forma harmônica. A solução passa primordialmente pela conscientização da população, é mais que educação. As pessoas não entram no mar por desconhecimento", finalizou o professor.

Redes de contra tubarões

A morte da adolescente Bruna Gobbi após um ataque de tubarão, no último dia 22, foi o 59º caso registrado no estado em 21 anos. A jovem paulista, atacada na praia de Boa Viagem, no Recife, foi socorrida pelos bombeiros, mas não resistiu aos ferimentos. As praias de Boa Viagem, com 24 ataques, e Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, com 17, são recordistas de ocorrências.

A morte de Bruna foi a 24ª e motivou a recomendação do Ministério Público Estadual de interditar praias com risco de ataques até a instalação de redes de proteção para os banhistas.

Clique para ampliar
Segundo a presidente do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), Rosângela Lessa, o desenvolvimento da região contribuiu para a aproximação dos tubarões das praias. Com a construção do Porto de Suape, no início dos anos 1990, rios foram desviados e arrecifes implodidos. Uma das espécies de tubarão foi diretamente afetada pela alteração de seu habitat. "O tubarão Cabeça-Chata guarda uma grande fidelidade ambiental e usa a área em todos os ciclos de vida. Ele encontrava uma barreira de salinidade e agora não encontra mais. Então, ele continua procurando seus espaços", explica.

Ela também explica que os tubarões capturados são levados para outras áreas para serem estudados. "Capturamos os tubarões, levamos a uma distância de 20 milhas, marcamos e os soltamos. Assim, o comportamento deles é estudado. Esse monitoramento retira os tubarões da área".

Rosângela, que também trabalha com dinâmica de populações de tubarões e arraias na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), ressalta a importância dos banhistas tomarem os cuidados necessários. São 44 pares de placas colocadas ao longo da área de risco. As placas orientam os frequentadores a evitar o banho em áreas de mar aberto, durante a maré alta, e em áreas profundas, com água acima da cintura.

O oceanógrafo e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Mário Barletta, também reforça que a poluição interferiu no comportamento dos animais. "Quando ocorre a vazão dos rios, os peixes saem para a região costeira e, nesse momento, os tubarões chegam para procriar. Com a poluição dos estuários [local de encontro entre o rio e o mar], essas espécies de peixes desapareceram. A única coisa que aumentou foi a oferta de turista na praia".

Ele lembra que a área é naturalmente povoada por tubarões, e banhistas e surfistas são, muitas vezes, confundidos com peixes e tartarugas, um alimento natural deles. O professor destacou ainda os cuidados que os banhistas devem ter. "O tubarão está ali, é um ambiente natural deles. Se passar dos arrecifes, a probabilidade de levar uma mordida, ser atacado, é grande", acrescentou.

Interdição de praias

O Ministério Público Estadual (MP) recomendou ao governo de Pernambuco que interdite áreas de praia com risco de ataque de tubarões até que sejam instaladas redes de proteção para os banhistas onde for possível. A avaliação para colocação das redes deverá ser feita pelo Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit).

A recomendação foi feita após a morte da turista paulista Bruna Gobbi.


Fontes: Terra / ISTOÉ