Agência nuclear japonesa declara que água radioativa de Fukushima é uma 'emergência'

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05/08/2013

A água altamente radioativa que escoa da usina nuclear de Fukushima para o oceano é uma emergência que o operador está lutando para conter, disse um funcionário da agência nuclear do país nesta segunda-feira.

Foto de satélite em 14 de março de 2011 mostra a usina nuclear de Fukushima após o forte terremoto seguido por tsunami que atingiu o Japão. Crédito: DigitalGlobe

Esta água subterrânea contaminada violou uma barreira subterrânea, está subindo em direção à superfície e excedendo os limites legais de descarga radioativa, relatou Shinji Kinjo, chefe de uma força-tarefa da Autoridade Reguladora Nuclear (ARN), à Reuters.

As medidas previstas pela Tokyo Electric Power Co são apenas soluções temporárias, disse ele.

O senso de crise da Tepco é fraco, disse Shinji Kinjo. "É por isso que não podemos simplesmente deixar a Tepco lidar sozinha com o desastre em curso.

"Neste momento, temos uma emergência", disse ele.

A Tepco tem sido amplamente criticada por sua incapacidade de se preparar para o grande terremoto seguido por tsunami em 2011 que devastou sua usina de Fukushima e por suas respostas confusas diante da fusão dos reatores. Ela também foi acusada de encobrir deficiências.

Funcionários da Tepco utilizam uma resina adesiva sintética para impermeabilizar o solo na tentativa de conter a contaminação em 2011. Crédito: Tepco

Não ficou imediatamente claro quanto perigo a água subterrânea contaminada pode representar. Nas primeiras semanas do desastre, o governo japonês permitiu a Tepco bombear dezenas de milhares de toneladas de água contaminada para o Oceano Pacífico em uma ação de emergência.

A liberação da água radioativa foi, porém, muito criticada pelos países vizinhos, bem como os pescadores locais, uma vez que haviam prometido não despejar água tóxica, sem o consentimento de seus vizinhos.

"Até que saibamos exatamente a densidade e o volume da água que está fluindo para o mar, eu honestamente não posso especular sobre os impactos no oceano", disse Mitsuo Uematsu pesquisador do Centro de Colaboração Internacional e do Instituto de Pesquisas Atmosféricas e Oceânicas da Universidade de Tóquio.

"Nós também devemos verificar os níveis na água do mar. Se estiver dentro do reservatório e não estiver fluindo para o mar, não poderá se espalhar tanto, como alguns temem."

Sem nenhum outro caminho para a água

A Tepco disse que está tomando várias medidas para evitar que a água contaminada vaze para a baía próxima a usina. Em um comunicado enviado por e-mail à Reuters, um porta-voz da empresa disse que a Tepco pede profundas desculpas aos moradores de Fukushima, das proximidades e do grande público por causar inconvenientes, preocupações e problemas.

A empresa bombeia cerca de 400 toneladas de água subterrânea por dia, que flui das colinas acima da usina nuclear de Fukushima para as fundações dos edifícios destruídos, se misturando com a água altamente radioativa utilizada para resfriar os reatores e mantê-los estáveis, abaixo de 100 graus Celsius.

Funcionário da Tepco aponta para uma rachadura que está causando vazamento desde o terremoto. Crédito: Tepco

A Tepco está tentando impedir que as águas subterrâneas atinjam a planta da usina através da construção de um "desvio", mas picos recentes de radiação na água do mar fez com que a empresa revertesse meses de desmentidos e, finalmente, admitir que a água contaminada está atingindo o mar.

Em uma tentativa de evitar mais vazamentos para o Oceano Pacífico, trabalhadores da fábrica criaram uma barreira subterrânea injetando produtos químicos para endurecer a terra entorno do prédio que abriga o reator número 1. Mas esse método só é eficaz para a solidificação do solo até 1,8 metros abaixo da superfície.

Ao romper a barreira, a água pode infiltrar através de áreas mais rasas da terra para o mar. E pior, ela está subindo em direção à superfície - uma pausa poderá acelerar o escoamento.

"Se você construir um muro, claro que a água vai se acumular ali. Não havendo outro caminho para a água escoar, ela vaza por cima ou pelos lados e, eventualmente, chegará ao oceano", disse Masashi Goto, engenheiro nuclear aposentado da Toshiba Corp que trabalhou em várias plantas da Tepco. "Então, agora, a questão é quanto tempo nós temos?"

A água contaminada pode subir para a superfície da terra dentro de três semanas, escreveu o jornal Asahi Shimbun no sábado. Kinjo disse que o cronograma de três semanas, não foi baseado em cálculos da ARN, mas reconheceu que, se a água atingir a superfície ela irá fluir extremamente rápido."

Um funcionário da Tepco disse hoje que a companhia planeja começar a bombear 100 toneladas de água subterrânea por dia a partir deste final de semana.

A força-tarefa regulamentadora que está supervisionando as medidas contra acidente na usina nuclear Fukushima Daiichi se reuniu na última sexta-feira (2). "Concluímos que são necessárias novas medidas para impedir que a água vá para o mar desse jeito", disse Kinjo.

A Tepco anunciou também na sexta-feira que um acumulado de 20 a 40 trilhões de becquerels (Bq) de trítio (isótopo radioativo de hidrogênio) provavelmente vazaram para o mar desde o desastre. A empresa disse que foi dentro dos limites legais.

O trítio é muito menos prejudicial do que o césio e estrôncio, que também foram liberados a partir da planta. Agora a Tepco está se programando para testar os níveis de estrôncio.

A admissão do vazamento a longo prazo de trítio, bem como as novas declarações dadas pela Autoridade Reguladora, mostram o estado precário da limpeza que já custou US $ 11 bilhões e o desafio da Tepco para corrigir um problema central: Como evitar que a água, contaminada com elementos radioativos, como césio, chegue ao Oceano Pacífico.

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Fonte: Reuters