Empresas irão escavar o leito oceânico em busca de minerais

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05/08/2014 

As perspectivas de uma "corrida do ouro" nas profundezas do mar, abrindo um polêmico caminho para a mineração no leito oceânico, estão mais próximas. 

A ONU acaba de publicar seu primeiro plano para o gerenciamento da extração dos chamados "nódulos" - pequenas rochas ricas em minerais - do fundo do mar.

Lançamento de um Veículo Operado Remotamente (ROV, na sigla em inglês) do deck de um navio. Estes ROVs são utilizados para exploração e amostragem. Cortesia: Nautilus Minerals
Lançamento de um Veículo Operado Remotamente (ROV, na sigla em inglês) do deck de um navio. Estes ROVs são utilizados para exploração e amostragem. Cortesia: Nautilus Minerals

Um estudo técnico promovido pela Autoridade Internacional do Leito Oceânico (ISA, na sigla em inglês), o órgão da ONU que controla a mineração nos oceanos, diz que as companhias interessadas podem pedir licenças a partir de 2016.

A ideia de explorar ouro, cobre, manganês, cobalto e outros metais do leito oceânico foi considerada por décadas, mas só recentemente se tornou factível, por conta do alto preço dos minerais e metais e de tecnologias mais modernas de exploração.

De acordo com a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar, a ISA foi estabelecida para estimular e administrar a mineração do fundo do mar para o benefício mais amplo da humanidade - com uma parcela dos lucros dirigida para os países em desenvolvimento.

Agora o órgão está dando o passo significativo de não só mais simplesmente manejar pedidos para exploração mineral, mas também considerar como licenciar as primeiras operações reais de mineração e como dividir as receitas.

"Estamos à beira de uma nova era de mineração do leito marinho profundo", disse o conselheiro legal do ISA, Michael Lodge.

Minerais no fundo do mar

Especialistas em proteção ambiental vêm advertindo há tempos que a mineração no leito oceânico pode ser altamente destrutiva e poderia ter consequências de longo prazo desastrosas para a vida marinha.

A ilustração mostra o processo de mineração do leito marinho pela empresa Nautilus Minerals. Imagem cortesia.
A ilustração mostra o processo de mineração do leito marinho pela empresa Nautilus Minerals.

O próprio estudo da ONU reconhece que a mineração provocará "danos ambientais inevitáveis".

Mas o relatório foi divulgado em meio ao que um porta-voz do órgão descreve como "um aumento sem precedentes" no interesse das companhias estatais e privadas.

Funcionários da Soil Machine Dynamics trabalhando em uma máquina de mineração submarina construída para a Nautilus Minerals, em Wallsend, Inglaterra. Crédito: Nigel Roddis / Reuters
Funcionários da Soil Machine Dynamics trabalhando em uma máquina de mineração submarina construída para a Nautilus Minerals, em Wallsend, Inglaterra. Crédito: Nigel Roddis / Reuters

O número de licenças emitidas para a busca de minerais já chega a 17, com outras sete prestes a serem emitidas e muitas mais em análise. Elas cobrem vastas áreas dos Oceanos Pacífico, Atlântico e Índico.

A atração é óbvia. Uma análise do leste do Pacífico - uma área de 5 milhões de quilômetros quadrados conhecida como zona Clarion-Clipperton - concluiu que mais de 27 bilhões de toneladas de nódulos poderiam estar misturadas à areia.

Essas pedras poderiam conter 7 bilhões de toneladas de manganês, 340 milhões de toneladas de níquel, 290 milhões de toneladas de cobre e 78 milhões de toneladas de cobalto - apesar de ainda não se saber o quanto disso é acessível.

No mês passado, geólogos japoneses encontraram o que afirmam ser um tesouro de terras raras no oceano, mas dentro do mar territorial do país, fora do alcance da ISA.

O grande desafio da mineração marinha será combinar interesses privados com recursos que devem ser compartilhados por toda a humanidade.

Mineração marinha e meio ambiente

As perspectivas da mineração no fundo do mar já geraram um forte debate entre cientistas marinhos.

"Não creio que nós tenhamos a propriedade sobre o oceano profundo, no sentido de que possamos fazer o que quisermos com ele", afirma Jon Copley, biólogo da Universidade de Southampton e chefe de missão do navio de pesquisas britânico James Cook.

"Em vez disso, nós dividimos a responsabilidade por sua condução", diz. "Nós não temos um histórico bom em alcançar um balanço em nenhum outro lugar - pense nas florestas tropicais -, então a questão é: 'Será que conseguiríamos acertar?", questiona.

O também biólogo Paul Tyler, do Centro Nacional Oceanográfico, da Grã-Bretanha, adverte de que espécies únicas podem ser colocadas em risco.

"Se você limpa aquela área pela mineração, aqueles animais terão que fazer uma dessas duas coisas: ou se dispersam e colonizam outra fissura hidrotermal em outro lugar ou eles morrem", comenta. "E o que acontece quando elas morrem é que a fissura se torna biologicamente extinta."

A química marinha Rachel Mills, da Universidade de Southampton, sugere um debate mais amplo sobre a mineração em geral, com o argumento de que todos nós usamos minerais e que as minas em terra são muito maiores do que seria qualquer uma no leito do mar.

Ela fez pesquisas para a Nautilus Minerals, uma empresa canadense que planeja explorar minas nas fissuras hidrotermais na costa da Papua Nova Guiné.

"Tudo o que nos cerca, e a maneira como vivemos, depende de fontes minerais, mas não nos perguntamos com frequência de onde eles veem." "Precisamos nos perguntar se há mineração sustentável em terra e se há mineração sustentável no mar. Acho que são as mesmas questões morais que devemos colocar se é nos Andes ou no Mar de Bismarck", diz.

Esse debate deve crescer mais com a proximidade cada vez maior do início das operações de mineração.

Mineração marinha no Brasil

No Brasil, a mineração marinha será realizada na exploração de crostas cobaltíferas na Elevação do Rio Grande.

Elevação do Rio Grande (destaque em vermelho). Imagem cortesia da Marinha do Brasil
Elevação do Rio Grande (destaque em vermelho). Imagem cortesia da Marinha do Brasil

A Coordenação da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM), apresentou um Plano de Trabalho, resultado de mais de quatro anos de estudos desenvolvidos no Programa de Prospecção e Exploração de Recursos Minerais da Área Internacional do Atlântico Sul e Equatorial (PROAREA), com intensa cooperação dos setores técnicos e políticos envolvidos, como o Serviço Geológico do Brasil, o Ministério das Minas e Energia, o Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação, o Ministério do Meio Ambiente e o Ministério das Relações Exteriores.

Esse Plano vai assegurar ao Brasil o direito exclusivo de exploração da área requisitada por, pelo menos, quinze anos, ampliando o espaço do País como ator no cenário político-estratégico dessa região de interesse. Acresce, ainda, importante contribuição para as pesquisas no Atlântico Sul e o nosso desenvolvimento socioeconômico. 

As atividades de pesquisa relacionadas à geologia e biologia marinha em áreas internacionais ganharam prioridade no País a partir de 2009, com a criação do PROAREA no âmbito da CIRM, que tem como propósito a identificação e avaliação da potencialidade mineral de áreas com importância econômica e político-estratégica localizadas na Área, por meio do desenvolvimento de tecnologia de ponta, da geração de empregos e qualificação de recursos humanos.

Como exemplo dessa sinergia, podemos citar que mais de sessenta estudantes e pesquisadores de diferentes instituições e áreas científicas como geologia, biologia e geofísica contribuíram para a construção do Plano de Trabalho.

Além das crostas ricas em cobalto, as pesquisas na Elevação do Rio Grande também constataram a ocorrência de outros minérios, como níquel, platina, manganês e terras raras que possuem relevante potencial científico e econômico.


Fonte: www.inovacaotecnologica.com.br e Marinha do Brasil