Estudo alerta para concentração de mercúrio nos oceanos

Compartilhe:

14/08/2014 

Grupo internacional de pesquisadores conclui que as águas a menos de 100 metros de profundidade apresentam hoje três vezes mais mercúrio do que antes da Revolução Industrial.

Uma bomba McLane sendo lançada pelo navio de pesquisas R/V Thompson durante o cruzeiro GEOTRACES, no Pacífico oeste em 2013, ajudaram os pesquisadores na coleta de pequenas partículas de matéria orgânica em que o mercúrio se fixa e afunda em profundidades intermediárias (100 a 1.000 metros) no oceano. Foto: Brett Longworth / WHOI
Uma bomba McLane sendo lançada pelo navio de pesquisas R/V Thompson durante o cruzeiro GEOTRACES, no Pacífico Oeste em 2013, que ajudou os pesquisadores na coleta de pequenas partículas de matéria orgânica em que o mercúrio se fixa e afunda em profundidades intermediárias (100 a 1.000 metros) no oceano. Foto: Brett Longworth / WHOI

Um novo estudo publicado na mais recente edição da revista Nature divulgou os primeiros cálculos sobre a concentração do mercúrio – um elemento prejudicial à saúde humana – no oceano global.

O trabalho foi feito com base em informações obtidas em 12 viagens de navio para a amostragem da água do mar nos Oceanos Atlântico (norte e sul) e Pacífico durante os últimos oito anos.

Os resultados das análises foram muito condizentes com outros modelos (não mensurações, como neste caso) usados anteriormente para a estimativa da poluição do oceano por mercúrio: entre 60 mil e 80 mil toneladas. Os maiores níveis foram encontrados no norte do Oceano Atlântico e no Ártico.

Os pesquisadores - um grupo internacional formado por cientistas da Instituição Oceanográfica Woods Hole (WHOI), da Universidade Estadual Wright, do Observatório Midi-Pyrénées e do Instituto Real da Holanda para Pesquisas Marinhas (NIOZ) - concluíram que as águas a menos de 100 metros de profundidade apresentaram o triplo de mercúrio do que na época da Revolução Industrial e que o oceano como um todo teve um aumento de cerca de 10% na concentração no mesmo período.

A unidade CTD (condutividade, temperatura, profundidade) é baixada pelo navio de pesquisas durante o cruzeiro GEOTRACES no Atlântico Norte em 2011. Dados e amostras de água coletadas durante o cruzeiro contribuíram para o estudo sobre o mercúrio no oceano global liderado por Carl Lamborg. Foto: Brett Longworth / WHOI
A unidade CTD (condutividade, temperatura, profundidade) sendo lançada pelo navio de pesquisas  R/V Knorr durante o cruzeiro GEOTRACES no Atlântico Norte, em 2011. Dados e amostras de água coletadas durante o cruzeiro contribuíram para o estudo sobre o mercúrio no oceano global liderado por Carl Lamborg. Foto: Brett Longworth / WHOI

“O problema é que não sabemos o que isso tudo significa para os peixes e os mamíferos marinhos. Provavelmente significa que alguns peixes têm ao menos três vezes mais mercúrio do que há 150 anos, mas pode ser mais. O essencial é que agora temos números sólidos sobre os quais basear a continuidade dos trabalhos”, alertou o químico marinho Carl Lamborg, do WHOI.

 “Com o incremento que vimos no passado recente, os próximos 50 anos podem muito bem adicionar a mesma quantidade que vimos nos últimos 150 anos”, completou.

Considerando as dificuldades de distinção entre as causas naturais e antropogênicas, os pesquisadores decidiram começar avaliando os dados de uma substância com comportamento similar ao mercúrio, mas que é melhor estudada, o fosfato.

Ao considerar o padrão de circulação oceânica e determinar a proporção do fosfato e do mercúrio em águas profundas, a mais de um quilômetro, que não tiveram contato com a atmosfera desde a Revolução Industrial, o grupo conseguiu estimar o mercúrio que estava no oceano e provem de fontes naturais, segundo o WHOI.

Para determinar a influência humana em águas mais superficiais, o grupo usou como um tipo de ‘rastreador’ o dióxido de carbono, substância que pode ser relacionada às principais atividades que liberam o mercúrio no ambiente, e que é muito bem estudada. Assim, os pesquisadores elaboraram um índice relacionando ambos os elementos.

Dr. Carl Lamborg (à esquerda), principal autor de um artigo recente na revista Nature estima a quantidade de mercúrio natural e derivado da poluição dos oceano, com a sua chefe de laboratório, Gretchen Swarr, que também é co-autora do artigo. Foto: Ken Kostel / WHOI
Dr. Carl Lamborg (à esquerda), autor de um artigo recente na revista Nature estima a quantidade de mercúrio natural e derivado da poluição dos oceano, com a sua chefe de laboratório, Gretchen Swarr, que também é co-autora do artigo. Foto: Ken Kostel / WHOI

"Por enquanto, não é possível olhar para uma amostra de água e diferenciar entre o mercúrio que veio da poluição e aquele de fontes naturais. Agora, ao menos temos uma forma de separar grande parte das contribuições de fontes naturais e humanas ao longo do tempo”, explicou Lamborg.

As estimativas de biodisponibilidade do mercúrio, a forma que ele pode ser absorvido por animais e humanos, têm um papel importante em tudo, desde a elaborações de tratados internacionais para controlar a liberação desse elemento, até o estabelecimento de políticas públicas para alertar sobre o consumo de frutos do mar.

“Ninguém antes tentou realizar um panorama mais abrangente de todos os oceanos e ter uma estimativa do total de mercúrio na superfície e de parte das águas profundas”, afirmou David Streets, cientista do Laboratório Nacional Argonne (Estados Unidos) que não estava envolvido no estudo, à Nature.

O mercúrio – que ocorre naturalmente, mas também é um sub-produto de diversas atividades humanas como a queima do carvão, a mineração e a fabricação de cimento – é considerado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um dos dez principais químicos de maior preocupação para a saúde pública.

Segundo a OMS, a intoxicação por mercúrio pode causar deficiências em fetos e em recém-nascidos, e ter efeitos sobre os sistemas nervoso, digestivo e imune, além dos pulmões, rins, pele e olhos.

A principal forma de contaminação humana pelo mercúrio é o consumo de frutos do mar, pois, ao entrar na cadeia alimentar marinha, ele se acumula nos animais de forma crescente, de acordo com o aumento do nível trófico.

Em 2010, avaliações de várias espécies de atum comprovaram que todas excederam ou se aproximaram dos níveis de mercúrio permitido pela OMS. Ou seja, apesar de variar dependendo da espécie, o atum, tão elogiado por suas propriedades saudáveis, na verdade também pode trazer riscos consideráveis.


Fonte: Instituto CarbonoBrasil