O outro lado do incêndio da Ultracargo

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05/04/2015 - Por Rafaella Martinez Vicentini 

Um incêndio de grandes proporções atingiu a empresa de armazenamento de combustíveis Ultracargo, na Alemoa, em Santos, na manhã da última quinta-feira (2/4). Após mais de 80 horas de trabalho árduo dos bombeiros, ainda não há estimativa de quando o combate às chamas será concluído.

Atualmente, apenas dois dos seis tanques permanecem pegando fogo e o trabalho de rescaldo do Corpo de Bombeiros continua em um terceiro tanque que continha álcool.

A quantidade de partículas nocivas enviadas através da fumaça tóxica para a atmosfera é difícil de ser calculada. Seus efeitos são mais prejudiciais para pessoas com doenças alérgicas ou respiratórias crônicas e também para aquelas que estiverem próximas ao foco da fumaça.

Porém, há uma outra face do problema que vai além da poluição do ar. O incêndio da Ultracargo pode provocar um desiquilíbrio ambiental grave na região, tendo inclusive impactos econômicos.

Fonte de renda comprometida

A 59ª Ação Voluntária EcoFaxina aconteceu neste domingo no mangue que fica às margens da Vila dos Pescadores, em Cubatão. O dia da Páscoa foi data útil para cinco voluntários do instituto se unirem com a comunidade para, mais do que recolher resíduos sólidos no manguezal, observar os efeitos já visíveis do escoamento das águas usadas no combate às chamas em todo o estuário.


De acordo com os pescadores artesanais que trabalham na região, já na tarde de quinta-feira era possível encontrar peixes mortos boiando na superfície. Neste domingo, durante visita técnica guiada pelo pescador José Hélio, encontramos toneladas de peixes e invertebrados: uma cena desoladora para quem luta por um ecossistema limpo e também para quem tira da pesca o seu sustento. Em meio ao manguezal, resquícios de espuma utilizada no combate ao incêndio.


“Sou pescador há 40 anos e trabalho aqui na região há mais de 25 anos. Nem nos outros incêndios do porto nós tivemos um problema tão grande quanto o de agora. Se fosse possível contar certamente daria várias toneladas de peixes mortos, é uma tristeza muito grande para quem vive disso. Quem vai bancar o nosso prejuízo?”. José Hélio não sai para pescar desde a tarde da quinta-feira, data do início do incêndio.


Alex Correa é filho de pescador e atualmente trabalha em Minas Gerais. A notícia do incêndio e o relato de amigos sobre a morte dos peixes fez com que ele voltasse para a Baixada Santista para ver com os próprios olhos a situação. “É assustador ver peixes como o robalo, a enguia e o bagre (que não são comuns na superfície) boiando. Isso significa que a situação pode estar pior do que a gente imagina. Quando vamos poder voltar a pescar e consumir peixes? Como a comunidade que sobrevive da pesca vai ficar? A multa da empresa não será direcionada para quem precisa.”, desabafa.

Estuário prejudicado

Enquanto percorríamos o estuário, o forte odor do peixe aumentava gradativamente. Então, nos deparamos com a cena mais lamentável da visita: uma extensão de cerca de um quilometro de peixes mortos. Dentre eles, dois meros juvenis (Epinephelus itajara) espécie ameaçada de extinção.


A CETESB (Companhia Ambiental do estado de São Paulo) informou que uma equipe acompanha permanentemente os trabalhos de emergência realizados na Ultracargo, com o objetivo de minimizar os impactos ao meio ambiente decorrentes do incêndio. No sábado foram coletados peixes no estuário e no rio Cubatão, além de amostras da água de cinco pontos diferentes da região. Análises preliminares indicam que peixes da região morreram devido à poluição da água, que apresenta baixa oxigenação e temperatura elevada. O órgão não sabe informar quantos peixes foram mortos.

Enquanto percorríamos o estuário encontramos uma equipe da empresa “Alpina Briggs” recolhendo peixes mortos. A CETESB informou que a ação de recolhimento irá encaminhar animais mortos para um local ambientalmente adequado.

Enquanto a atenção das autoridades está voltada para o incêndio, os pescadores artesanais permanecem em dúvida sobre o futuro e o sustento de suas casas. Para as comunidades que vivem nas palafitas, além da ausência de peixes na mesa e da poluição do mangue, sobra o odor desagradável que vai muito além do cheiro da fumaça negra.

Parceria com a comunidade

Organizada em parceria com a Associação de Pescadores “José Tobias Barros” e o Esporte Clube Só Bolado, a 59ª Ação Voluntária EcoFaxina encerrou o 1º Projeto Verão Saúde Ambiental da Vila dos Pescadores, envolvendo dezenas de moradores que utilizaram quatro barcos para recolher 130 sacos de 100 litros cheios, totalizando 1.055 quilos de resíduos sólidos a menos no estuário de Santos. Já estamos programando a próxima!