Estudo: 90% das aves marinhas já ingeriram plástico

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11/09/2015 

Até 2050 será 99%, se a humanidade continuar saturando o oceano com bilhões de toneladas de plástico, de acordo com um novo estudo. Estima-se que haja atualmente 580.000 objetos de plástico por km² nos oceanos do planeta.

Carcaça de um albatroz-de-laysan (Phoebastria immutabilis). Processo de decomposição evidencia a causa da morte.
Carcaça de um albatroz-de-laysan (Phoebastria immutabilis). Decomposição evidencia a causa da morte.

Para chegarem a esses números, os pesquisadores começaram reunindo meio século de trabalhos acadêmicos sobre aves marinhas e plástico. Eles descobriram que, 80 das 135 espécies presentes nos estudos ingerem plástico e que cerca de um terço das aves continham objetos plásticos - tampas, lacres, isqueiros, sacolas rasgadas, brinquedos, filamentos e fragmentos - em seus estômagos quando necropsiadas.

Mas esses estudos datam desde 1962, quando a poluição por plástico era um problema muito menor. E se esses mesmos estudos em aves fossem todos executados hoje? Os estudiosos desenvolveram um modelo para responder a essa pergunta, e utilizando dados atuais sobre a concentração de plástico nos oceano, descobriram: 90% das aves marinhas em 186 espécies por todo o planeta já ingeriram plástico.

Os resultados foram publicados no jornal da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

Cerca de 90% dos resíduos coletados durante as Ações Voluntárias EcoFaxina em manguezais no estuário de Santos é composto por plástico.

O plástico está em todos os lugares, em nossas casas, em nossos carros, em nossa comida, mas onde ele vai parar quando acabamos de utilizá-lo? O fato triste é que grande parte acaba em nossos oceanos. E com todo esse plástico flutuando, alguns são inevitavelmente apanhados por aves marinhas. Eric van Sebille, coautor, do Imperial College London, analisou 60 anos de dados e descobriu que, em comparação com a década de 1960, quando apenas 5% das aves estudadas continham objetos plásticos em seus estômagos, hoje esse número subiu para 90% , e pode chegar a 99% em 2050. Connie Orbach da Univesidade de Cambridge falou com Eric sobre o problema....

Erik - Nós sabemos que estas aves são forrageadoras, certo? Eles passam muito tempo apenas pairando acima da superfície do oceano, tentando encontrar alimentos. E, por vezes, confundem um isqueiro, por exemplo, com um peixe, ou ficam penas curiosas e querem pegá-lo.

Connie - Então, por que você acha que há tanto plástico no estômago? De onde vem tudo isso?

Erik - Muitas pessoas já devem ter ouvido falar sobre o que nós chamamos "ilhas de lixo" - são áreas no oceano aberto, onde todo o plástico em algum momento se acumula. Mas o que descobrimos é, na verdade, que não há muitas muitas aves marinhas forrageando nessas áreas, não existem muitas aves marinhas ingerindo plástico em mar aberto. Assim, a maior parte dos danos à fauna causado pelo plástico realmente ocorre em regiões costeiras.

Guará (Eudocimus ruber) procura alimento no mangue em meio a muito plástico.
Guará (Eudocimus ruber) procura alimento no mangue em meio a muito plástico.

Connie - O que significa estas aves terem plástico no estômago?

Erik - Nós não sabemos realmente o que o plástico causa em aves marinhas, mas temos certeza de que é prejudicial. Pode tanto causar obstrução do trato digestório quanto feri-las internamente. Outra coisa que acontece em alguns casos é o acúmulo de grandes quantidades de plástico nos estômagos. Já encontramos o equivalente a 8% da massa corporal nos estômagos de aves marinhas. Para uma pessoa adulta, seriam 6 quilos. É como andar por aí com dois gatos no estômago. E, em seguida, em terceiro lugar, o plástico pode conter toxinas e estas toxinas podem ser absorvidas nas aves.

Connie - A ideia de transportar dois gatos por aí soa realmente irritante. Quando eu penso em aves marinhas, penso nas gaivotas, que no Reino Unido são um tipo de praga. Elas roubam comida de todos à beira-mar - por que eu deveria me importar com o que está acontecendo com estas gaivotas?

Erik - Pense sobre pinguins, pense sobre albatrozes. Mas eu acho que o mais importante é que, as aves marinhas são quase literalmente canários em uma mina de carvão. Se as aves marinhas ingerem plástico, podemos estar certos de que outras criaturas também ingerem plástico. É que as aves marinhas têm sido sempre mais fácil de estudar. Elas nidificam em terra, assim a literatura sobre aves marinhas tem muito mais tempo, muito mais do que a maioria dos animais marinhos.

Connie - Existe a possibilidade de que as aves marinhas ingerindo parte desse plástico através dos animais que elas estão comendo e não apenas diretamente?

Erik - Provavelmente, isso é verdade, mas a partir de nossos estudos, foi muito difícil evidenciar isso. Então, novamente, isso é algo que nós realmente precisamos entender. Nós mal sabemos a quantidade certa de plástico que entra no oceano. Nós não sabemos aonde o plástico está, e onde preocupantemente, parte desse plástico pode ser incorporado aos animais, ao que chamamos de biota. Assim, o plástico pode realmente estar incorporado a pássaros, peixes, plâncton, mexilhões. Todas essas criaturas pode realmente conter plástico.

Voluntária coleta plástico em praia do Guarujá (SP) durante Ação Voluntária EcoFaxina.
Voluntária coleta plástico em praia do Guarujá (SP) durante Ação Voluntária EcoFaxina.

Connie - Alguns dos animais que você mencionou, em seguida - mexilhões e peixes, são coisas que normalmente comemos - há alguma possibilidade de nós também estarmos ingerindo plástico através da cadeia alimentar?

Erik - Sim, embora ninguém realmente saiba a magnitude disso, quanto de plástico que realmente estamos ingerindo através da cadeia alimentar. Eu acho que nós precisamos perceber que vivemos em um mundo de plástico. O plástico é um material fantástico, certo? É durável, é leve, é à prova d'água. É tudo o que você quer de um material que é tão versátil. O único problema é a forma como gerimos os resíduos de plástico. Precisamos ter certeza de que eles não cheguem aos oceanos, que não alcancem ambientes naturais.

Connie - Então, você não está dizendo que deveríamos usar menos plástico. Que deveríamos administrá-lo melhor.

Erik - Acho que devemos ser mais conscientes de que, ao usarmos plástico, devemos ter cuidado ao descartar no final.

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Connie - Então, sobre a estimativa de que 99% das aves marinhas terão plástico no estômago em 2050, você acha que podemos virar esse jogo?

Erik - Sim. Um estudo relatou que houve um grande esforço da União Europeia para reduzir a quantidade de plástico que entra no oceano, na verdade, houve uma queda significativa na quantidade de plástico encontrado em aves marinhas no mar do Norte. Essa é uma grande notícia. Isso significa que se você parar, as aves serão menos impactadas, e irão se recuperar.

Fontes: Cambridge University e MSNBC
Tradução: William R. Schepis/Instituto EcoFaxina