Aves comem plástico no oceano porque sentem 'cheiro de alimento'

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12/11/2016 

Um novo estudo lança luz sobre por que tantas aves marinhas, peixes, baleias e outras criaturas estão ingerindo tanto plástico. E não é exatamente o que os cientistas pensavam. 


Os oceanos estão sendo invadidos pelo plástico e centenas de espécies marinhas ingerem quantidades surpreendentes. No entanto, o porquê de tantas espécies, de minúsculos zooplânctons às baleias, confundirem plástico com alimentos nunca foi totalmente explorado.

Agora, um novo estudo explica o porquê: Tem cheiro de comida.

Algas são consumidas pelo krill, pequenos crustáceos que são a principal fonte de alimento para muitas aves marinhas. Como as algas se decompõe naturalmente no oceano, elas emitem um forte odor de enxofre conhecido como dimetilsulfureto (DMS). Aves marinhas em busca de krill aprenderam que o odor de enxofre às levam a suas áreas de alimentação.

Pequenos crustáceos semelhantes ao camarão, o krill compõe o zooplâncton, base da cadeia alimentar nos oceanos.

Acontece que o plástico flutuante fornece uma plataforma perfeita para as algas prosperarem. Como as algas se decompõe, emitindo o odor do DMS, aves marinhas, seguindo seus olfatos em busca de krill, são enganadas por uma "armadilha olfativa", de acordo com um novo estudo publicado dia 9 de novembro na Science Advances. Em vez de se alimentarem de krill, elas se alimentam de plástico.

"DMS é o sino do almoço", diz Matthew Savoca, estudante de doutorado da Universidade da Califórnia - Davis e principal autor do estudo. "Quando as pessoas ouvem o sino do almoço, sabemos que a comida está pronta. Este é o mesmo conceito. Uma vez que o olfato dos pássaros lhes diz que este é o lugar onde podem encontrar o krill, iniciam o forrageamento (comportamento de busca e exploração de recursos alimentares)".

Os detritos plásticos têm se acumulado rapidamente nos oceanos do planeta, quase dobrando a cada década. Em 2014, uma análise global estimou a quantidade de plástico nos oceanos em 250 milhões de toneladas, em grande parte suspenso na forma de pequenas partículas do tamanho de um grão de arroz. Mais de 300 espécies foram documentadas consumindo plástico, incluindo tartarugas, baleias, focas, aves e peixes. Aves marinhas estão especialmente em risco; Um estudo publicado no ano passado por cientistas da Austrália concluiu que praticamente todas as aves marinhas já consumiram plástico.

Na Baixada Santista, toneladas de plástico descartadas diariamente por favelas de palafitas em manguezais no interior do estuário saem para o oceano pelo do canal do Porto de Santos (acima) e pelo canal de São Vicente.

Cerca de 700 espécies de animais marinhos foram registradas como tendo encontrado detritos feitos pelo homem, como plástico, metal e vidro, de acordo com o estudo de impacto mais abrangente em mais de uma década realizado por pesquisadores da Universidade de Plymouth.

O plástico representa cerca de 92 % dos casos de ingestão e emaranhamento e 17 % de todas as espécies envolvidas está na lista vermelha de ameaçadas ou quase ameaçadas de extinção da IUCN, como a foca-monge-do-havaí e a tartaruga-cabeçuda.

Os cientistas sabem há muito tempo que o plástico no oceano é consumido porque parece comida. As tartarugas marinhas, por exemplo, confundem frequentemente sacolas plásticas com águas-vivas. Outros animais marinhos, incluindo peixes, devoram pedaços de microplástico, quebrados pela luz solar e a ação das ondas, porque se assemelham a pequenos organismos de que normalmente se alimentam.

Mas o estudo de como os odores podem influenciar na ingestão de plástico por animais marinhos é o primeiro de seu tipo. Savaca uniu-se a uma cientista que estuda como os odores afetam as tomadas de decisão, e um químico de alimentos e vinhos, para determinar qual odor poderia ser o causador.

"Isso não desmente que o plástico possa parecer visualmente atraente", diz ele. "Muitas vezes, é o cheiro que faz os animais forragearem na área e ativam o processo de alimentação. É muito mais provável que uma ave marinha coma plástico se ele parecer e 'cheirar' como comida."

Chelsea Rochman, uma bióloga evolucionária da Universidade de Toronto, que estuda os efeitos tóxicos do plástico consumido pelos peixes, chamou o estudo de um passo importante para entender por que os animais marinhos estão comendo plástico.

"Ao longo da literatura sobre detritos plásticos, você vê pesquisadores escreverem declarações implicando que os animais estão 'escolhendo' comer detritos plásticos sem um bom teste ou explicação do porquê", diz ela. "Este é o primeiro grupo a mergulhar realmente nos detalhes do porquê."

A equipe de Savoca decidiu se concentrar em aves já severamente afetadas pelo consumo de plásticos: albatrozes, pardelas e petréis. Eles começaram o estudo colocando sacos com microplástico em boias da baía de Monterey e Bodega Bay, ao largo da costa da Califórnia. Depois de três semanas eles recolheram os sacos e testaram o odor em laboratório.

"Eles cheiravam a enxofre", diz Savoca.


Não demorou muito para identificar o DMS como um forte preditor de consumo de plástico nos oceanos e a "infoquímica fundamental" que atrai animais marinhos para o plástico como se fosse krill. Testes de extração de odor confirmaram que três variedades comuns de plástico adquiriram uma "assinatura DMS" em menos de um mês. A equipe também descobriu, não surpreendentemente, que as aves mais atraídas pelo odor DMS são albatrozes, pardelas e petréis, as mais severamente afetadas pelo consumo de plástico.

Os pesquisadores querem agora desenvolver novos estudos para saber se outros animais, como peixes, pinguins e tartarugas, também são atraídos para o plástico por substâncias químicas.

E eles dizem que pode ser possível desenvolver plásticos que não atraiam algas ou não quebrem rapidamente no ambiente.

"Saber as espécies mais impactadas com base na maneira como encontram alimentos permite que a comunidade científica descubra como melhor alocar esforços de monitoramento e conservação para as espécies mais necessitadas", disse Savoca.

Fontes: Science Magazine e National Geographic 
Tradução e adaptação: William R. Schepis/Instituto EcoFaxina